segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Para Servir ao Deus Vivo necessitamos Ser uma Comunidade Viva
Meus amados irmãos... eu tenho me preocupado com o rumo que a missão urbana nos dias atuais, pois é uma missão paliativa despreocupada com a restauração e libertação integral das vidas! Necessitamos cobrar mais de nossas autoridades civis e eclesiásticas para que tomem atitudes frente a tremenda miséria que os bairros da periferia de suas cidades. A miséria não se resume somente às finanças, mas a distribuição de renda por parte do governo civil e, miséria espiritual e emocional que não é atendida pelas Igrejas de seus bairros, visto que todas igrejas que estão nos bairros não investem suas coletas e ofertas nos próprios bairros! As ofertas e dizimos migram para suas sedes eclesiásticas que não fazem essas ofertas retornarem para projetos missionários nos bairros onde estão suas congregações. Não há projetos missionários nem locais e nem regionais. As favelas e comunidades estão dominadas pelas drogas e pela sexualidade irresponsável, famílias destruídas e totalmente desestruturadas. Muitos projetos poderiam sim ser assumidos pelas igrejas. Basta cada igreja assumir sua região de trabalho em parceria com outras igrejas de seu bairro. Muitas barreiras espirituais serão quebradas se as barreiras institucionais forem superadas pelo Amor às almas e pela fé no Evangelho de Poder que gera vida! Todas as comunidades cristãs deveriam ser vivas! Comunidade Viva! Todas as comunidades devem refletir o organismo vivo que a Igreja é. Uma igreja que está num bairro e não articula nada além de seu culto, não pode se considerar como uma Comunidade Viva... Uma Comunidade Viva Vive porque serve ao Deus Vivo para resgatar vidas para o autor da Vida! [Não foi redundância... foi proposital tanta repetição].
Marcos José Martins
Missionário Urbano
Teólogo e Capelão
Marcadores:
Igreja - Missão Urbana - Organismo Vivo - Servir
quarta-feira, 19 de maio de 2010
CRESCENDO EM GRAÇA E CONHECIMENTO
CRESCENDO EM GRAÇA E CONHECIMENTO
O escritor da Segunda Epístola de Pedro começa e termina sua narrativa teológica dessa maneira:
2 Pe. 1.1 Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, 2 graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor.
2 Pe. 3.17 Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; 18 antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.
Provavelmente essa epístola foi escrita para os novos judeus-cristãos na diáspora (dispersão). Os que estavam na dispersão precisavam compreender a essência da fé que fortalece mesmo em tribulações ou perseguições (Cf. 1Pe. 4.12 ss). A chamada para se manter firme na fé e na verdade, antes proclamada pelos servos de Deus, são os temas centrais da epístola (2 Pe. 1.12; 2.2, 21; 3.2). Outro subtema do livro é a relação entre o crescer na graça e o crescer no conhecimento, como uma busca pela experiência com Deus, mas também como um compreender o agir e o amor de Deus revelado em e por Jesus Cristo (2 Pe. 1.3, 8; 2.20-21; 3.18).
Esboço de Assuntos deste Seminário Temático:
1. Crescendo na Graça
1.1 Etimologia - Graça
1.2 Origens da Graça
1.3 Evidências da Graça
1.4 Possibilidades da graça em nós
2. Crescendo no Conhecimento
2.1 Etimologia - Conhecimento
2.2 Origens do conhecimento/ sabedoria
2.3 Conhecimento de Deus
2.4 O Conhecimento e os dons edificam o corpo de Cristo
Conclusão
1. CRESCENDO NA GRAÇA: O (a) cristão (ã) é como qualquer outro ser vivo que necessita crescer, precisa entender que ainda está se desenvolvendo. Uma das faces desse desenvolvimento é compreender o impacto da graça de Deus e de Jesus Cristo em nossas vidas.
1.1 Etimologia: A palavra graça (Caris = Charis) aparece 158 vezes no NT. Graça tem como sinônimo as palavras favor e generosidade e na sua forma pós-fixa surge o termo graciosidade. Graça não tem nada a ver com futilidade. Não é porque é Graça que precisa ter conotação de barata ou algo de pequeno valor.
1.2 Origens da Graça: Pedro chama os fiéis para que compreendam, pratiquem, se desenvolvam e vivam na/ pela e por graça. A graça é uma dádiva de Deus para toda a humanidade. Um presente dado para pessoas que não tinham méritos em si mesmas para recebê-la. A graça não é aceita sem o intermédio da fé, tipificada aqui como uma “mão” que recebe o presente ofertado (Ef. 2.8).
A humanidade procurou de toda a forma ofertar (por sacrifícios, oferendas e adoração) presentes para as divindades, no intuito de reconciliar, agradar ou apaziguar os “deuses”. Contudo, a graça de Deus é um presente do próprio Deus ofertado à humanidade, pelos méritos do próprio Deus revelados na encarnação do Cristo de Deus, a imagem divina impressa na humanidade de Jesus de Nazaré (Gl. 2.16; 1 Jo. 4.9 ss). O Deus-Pai é o Ser que emana graça (1 Pe. 5.10), o Deus-Espírito derrama e promove essa graça sobre os corações (Rm. 5.5; Gl. 4.6; Fp. 4.7; Zc. 12.10; Hb. 10.29) e o Deus-Filho é a encarnação e protótipo da graça de Deus revelada como verdade (Jo. 1.14) numa nova dispensação (Ef. 1.10; 3.2; Cl. 1.25). Parecer e ser semelhante a Cristo é viver o aspecto estético da graça. O Único Deus-Trino se revela pessoalmente como o autor, mantenedor e consumador da graça. Tudo feito por Ele, passa por nós, transcende, se inova e volta para Ele!
1.3 Evidências da Graça: A graça faz com que o (a) cristão (ã) repense sua vida e sua história como uma nova oportunidade para conhecer a Deus e viver seu amor! É uma oportunidade de ser salvo da corrupção que há no mundo. John Wesley afirmava que a graça de Deus é uma graça salvadora/ preventiva, denotando assim o aspecto soteriológico da graça, na teologia arminiana.[1] Todos (as) que estão cheios da graça, conseqüentemente demonstram essa posse legítima produzindo frutos de justiça, de pacificidade e de santificação (Rm. 6.22; Gl. 5.22; Fp. 1.11; Hb. 12.11-16; cf. Jo. 15.1-3). Paulo escrevendo aos crentes de Colossos (1.3-29) associa vários elementos ao desenvolvimento da graça em nós:
a) A graça e o testemunho da fé, para vivermos de forma digna para agradar a Deus (vs. 3-4, 10);
b) A graça, a esperança e verdade do evangelho (vs. 5-6);
c) A graça e os frutos produzidos e amadurecidos (v. 6, 10);
- O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança.
d) A graça e o entendimento da graça e da verdade (v. 6);
e) A graça e o amor no Espírito (v. 8);
f) A graça e o transbordamento do pleno conhecimento da vontade de Deus (v. 9, 10);
g) A graça, a sabedoria e a inteligência espiritual (v. 9);
h) A graça, o poder (para servir), a perseverança, a longanimidade e a alegria (v. 10-11);
i) A graça, a reconciliação e santificação (v. 22);
j) A graça, a permanência e a firmeza da fé (v. 23);
k) A graça e a perfeição cristã (v. 28).
l) A graça e o crescimento em ações de graças (cf. 2.7)
A graça de Cristo é acumulativa, expansiva e inclusiva. Tudo que recebemos – em prosperidade e espiritualidade no corpo de Cristo - é conseqüência da graça. A graça precisa ser difundida e distribuída gratuita e deliberadamente (Mt. 10.8; Rm. 3.24). Os que vivem a graça liberam perdão naturalmente, pois experimentaram o perdão dado por Deus através de Jesus Cristo. Esse é o aspecto ético da graça.
Mas, a graça também é validada pelo aspecto profético, quando ela repousa à sobra da cruz. Os outros aspectos da graça não seriam o que são sem o Evangelho da Cruz. Graça sem cruz torna o evangelho vazio de sentido, sem abnegação! Cruz sem a Graça nos faz retornar aos rudimentos sacrificiais da Lei e à lógica retribuitiva e meritória que ostenta a vaidade, o favoritismo e a acepção das pessoas. Cruz, Graça e Evangelho devem andar juntos para reforçar o Caráter Profético de uma Geração Cristã Saudável em todas as áreas da vida! A graça não pode ser barata e a cruz não pode ser negligenciada. A cruz pode estar vazia, mas nunca poderá ser esvaziada de seu sentido soteriológico, estético, ético e profético. Conferir Tabela abaixo:
ASPECTO
EFEITO
REFERÊNCIA
Soteriológico - Salvação
At 15.11; 2Tm 1.9 Tt 2.11; 3.5; Ef 2.8
Estético - Imagem de Deus
Rm. 8.29; Cl. 3.10; 1Ts 1.6; 2Co 3.18
Ético - Gratuidade distribuitiva
Mt. 10.8; 1Pe. 4.10
Profético - Anúncio e revelação
Mt. 10.38; 16.24; Gl. 5.11; Ef. 2.16; Cl. 1.20; 2.14
1.4 Possibilidades da graça em nós: Cristo é o nosso modelo para crescer em graça e conhecimento:
“Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele [...] E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas [...] E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. (Lc. 2. 40 e 52)
Pensar Deus, que é a própria graça, o principio da sabedoria e o verbo eterno, cuja sua estatura está nas alturas excelsas (o Altissimo) e que abre mão de toda sua glória e se esvazia (ekenwsen = ekenosen) de todo o seu poder divino – na pessoa de seu Filho Unigenis (uion ton monogenh = uion ton monogenê) – para se tornar um ser humano (Fp. 2.5 ss; Jo. 1.1 ss), passível da aprendizagem didática da casa de seus pais, da sinagoga e da sociedade judaica nos dá os parâmetros possíveis para o crescimento.
Deus não precisaria crescer em graça, estatura e conhecimento, mas humilhou-se a si mesmo, na pessoa do Filho, na forma de servo e experimentou as mesmas fases de crescimento e amadurecimento intelectual, emocional e espiritual, humanamente falando.
Ao passar por tudo isso, Deus encarnado humano, provou-nos que é possível crescer e amadurecer como seres humanos e, consequentemente fazermos obras maiores que ele fez (Jo. 14.12). Se fez pecado, simples e fraco (Mt. 11.28-30; Rm. 8.13; Gl. 1.4; 2Co. 5.21) pela gratuidade do amor do Pai.
Muitos cristãos (ãs) ainda não comprendem que para experimentarmos a gratuidade do amor de Deus precisamos reconhecer que somos fracos e necessitados quando dependemos somente de nós mesmos ou somos escravos de nossas más escolhas.
Testemunhar a Graça não é só esperar ter uma vida de vitória e triunfalismo. O apóstolo Paulo testemunhou a graça, mesmo em momento de fraqueza e perseguição:
2Co. 12.7 E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar. 8 Acerca do qual três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim. 9 E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. 10 Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte.
[Cf. tb. Fp. 4.6-19; 2Co. 4.7-18].
Paulo, por fim, aconselha que além de crescer na graça, Timóteo deveria se fortalecer na graça (2 Tm. 2.1). Que a graça, maravilhosa graça, possa sempre superabundar em nós, não por causa da abundância de pecados, mas pela perseverança da fé e na maturação do fruto do Espirito Santo que opera em nós!
O crescimento é tanto possível como necessário.
2. CRESCENDO NO CONHECIMENTO: Enquanto a Vinda de Cristo não acontece, necessitamos crescer em tudo para chegarmos à estatura de homem/ mulher perfeito conforme a justa medida de Cristo (Ef. 4.13; 1 Co. 16.13). Crescer na graça, no conhecimento, na fé, na sabedoria e progredir nos dons inevitavelmente andam juntos (1Sm. 2.26; Pv. 1.5; Lc. 2.40, 52; 1Co. 14.12; Ef. 4.15; Cl. 1.10; 1Ts. 1.3; 4.1; 2Pe. 3.18).
2.1 Etimologia: A palavra conhecimento/ sabedoria (heb. יָדַע = Yada’; gr. gnosen = Gnósen ou Sofia = sofia) permeia praticamente todos os livros da Bíblia. Desde a árvore do conhecimento (Gn. 2.9) até o conhecimento do nome oculto do Messias (Ap. 19.12) na Vinda de sua Glória. A palavra pode ter sentidos diversos, mas os principais conceitos têm a ver com os verbos (e seus sinônimos) saber, conhecer, revelar algo oculto/ novo, instruir-se, perceber etc.
2.2 Origens do conhecimento/ sabedoria: Podemos destacar a sabedoria divina e a sabedoria humana. “E disse Deus”. O Verbo/ a palavra (דְבַר = Davar) é o principio da sabedoria (יָדַע = Yada”) divina.
O sábio do livro de Provérbios narra a trajetória da Sabedoria na eternidade, na história e sua habitação no ser humano (Pv. 8.1ss). Aliás, é no livro de Provérbios que mais se discursa sobre a origem, a trajetória e a finalidade da sabedoria/ conhecimento. A outra sabedoria é a humana. Esta provém da primeira, pois Deus doou à humanidade a capacidade de pensar, raciocinar e criar! A sabedoria humana pode estar em plena sintonia quando procura aprender com Deus, aprender de Deus e aprender coisas úteis para agradar a Deus e servir a si mesmo e – ao mesmo tempo – aos demais seres vivos que compõem a criação. A medicina, a história, a música, a metalurgia, a agricultura, a pecuária etc (Gn. 4.20-22) fazem parte da capacidade de criação do ser humano. Faz parte do acervo de conhecimento produzido, mantido e ampliado pela humanidade.
Ambas as sabedorias (divina e humana) podem trabalhar em conjunto! Contudo, a sabedoria humana é passageira, parcial e temporal e jamais poderá sobrepor a sabedoria divina. A sabedoria humana está sujeita aos seus caprichos, quando estiver fora dos parâmetros da sabedoria divina para o conhecimento do bem!
2.3 Conhecimento de Deus: Todos os escritores bíblicos sempre enfatizaram a necessidade dos homens conhecerem a Deus. Adão conhecia Deus face a face (Gn. 3.8, 9), Abraão foi chamado de amigo de Deus (Tg. 2.23), Moisés falava diretamente com Deus (Ex. 33.11), Enoque (Gn. 5.24) e Elias (2 Re. 2.11) andaram com Deus e Deus os tomou para si.
Os profetas Oséias, Isaías, e Jeremias criticaram veementemente os lideres políticos e religiosos e o povo de Israel-Judá porque não procuraram conhecer Deus e se desviaram do conhecimento da Sua vontade.
O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende [...] Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e as suas próprias obras fazem às escuras, e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece? (Is. 1.3; 29.15)
Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizaram por Baal e andaram atrás de coisas de nenhum proveito [...] Deveras, o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não inteligentes; são sábios para o mal e não sabem fazer o bem [...] Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor [...] curvam a língua, como se fosse o seu arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade, porque avançam de malícia em malícia e não me conhecem, diz o Senhor. (Jr. 2.8; 4.22; 8.7; 9.3)
Ouvi a palavra do Senhor, vós, filhos de Israel, porque o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus [...] O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Os. 4.1, 6)
Os profetas Isaías e Jeremias chegam a revelar a arrogância do povo de Deus, cujo olhos, a boca, a mente (coração) e os ouvidos estavam longe do conhecimento sobre Deus.
Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo [...] Mas não atenderam, não inclinaram os ouvidos; antes, endureceram a cerviz, para não me ouvirem, para não receberem disciplina. (Is. 6.10; Jr. 17.23)
O profeta Oséias aconselha o povo de Deus para que o mesmo possa conhecer Deus:
Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. (Os. 6.3)
Jesus ensinava por parábolas, mas os líderes e uma grande parcela das multidões que o ouvia não compreendiam e não entendiam, pois endureciam seus corações para não conhecerem a Deus.
[...] Os discípulos lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido [...] falo por parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. 14 De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías:
Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados. Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram. (Mt. 13.10-17)
2.4 O Conhecimento e os dons da Trindade edificam o corpo de Cristo: No Livro de Mateus (11.25-30) vemos “Jesus [...] louvando o Pai por ocultar essas coisas [do Reino] dos sábios... e revelá-las aos pequeninos”.[2]
Neste mesmo texto Jesus declara que conhece o Pai e que o Pai o conhece! Jesus é o único ser que conheceu o Pai, sua doutrina e sua vontade (Mt 6.10; Jo 4.34; 5.30; 6.38; 7.17-19; 8.19 ss; 17.25). Por isso, Deus agradou capitular n’ Ele todas as coisas, fazendo-O cabeça da criação [restituindo-o o poder sobre ela] e também da Igreja (Cl. 1.13-23. cf. vs. 17-18). Os apóstolos desejavam ardentemente que os cristãos conhecessem a vontade de Deus.
“Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação (1Pe 2.2)... [Mas] cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo (Cl. 2.8)... Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo (Gl 4.3). Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade que alguém vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido (Hb 5.12)... Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus ( Hb. 6.1)... Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lança em rosto; e ser-lhe-á dada (Tg. 1.5)”.
A Igreja recebeu gratuitamente - não por méritos[3] - os dons do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esses dons em conjunto e simetricamente devem edificar e fortalecer a Igreja em sua missão. É coerente pensar que Deus não se esqueceria de equipar e capacitar o seu povo com ministérios, habilidades, talentos e dons relacionados ao conhecimento, ensino, exortação e doutrinação da Igreja de Cristo. Paulo, pela inspiração do Espírito de Deus, desejava que os cristãos recebessem e progredissem nos dons da Trindade. Paulo classifica três dons do Espírito com a busca do conhecimento, entendimento, discernimento e sabedoria.
Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo [...] Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil. Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência (conhecimento) [...] o dom de discernir os espíritos [...] Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer [...] Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir [neles], para a edificação da igreja”. (1Co 12.4, 7-8, 10-11; Cf. tb. 1 Ts. 4.1)
Quando falamos dos dons do Pai encontramos os dons de Ensino e Exortação:
“tendes... diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; o que ensina esmere-se no fazê-lo; o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria [...] Torna-te, pessoalmente, exemplo de boas obras. No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito”. [...] “aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino”.
(Rm. 12.3, 6-8; 1Tm. 4.13 e Tt 2.7)
Nos dons ministeriais concedidos por Cristo encontramos o ofício de mestre:
apostolous [apóstolos = missionários], profhtas [profetas], euaggelistas [evangelistas], poimenas [pastores] e didaskalous [mestres/ doutores].[4] (Ef. 4.11)
apostolous [apóstolos = missionários], profhtas [profetas], e didaskalous [mestres/ doutores]. [5] (1Co 12.28)
Dons Espirituais, ministeriais e eclesiais (vocacionais) ► Conhecimento
Provém do:
Tipo de Dom:
Referências:
PAI
Ensino e Exortação
1Tm. 4.13; Tt. 2.7
FILHO
Docência e instrução
Ef. 4.11; Mt. 4.23; 7.29
ESPÍRITO
Sabedoria, conhecimento e discernimento
1Co 12.4, 7-8, 10-11
Apesar de muitos não gostarem, principalmente os que só vivem “o espiritual”, foi o próprio Cristo que elegeu quem deveria ensinar a Igreja pela letra e pelo Espírito. Claro que o conhecimento sem orientação do Espirito ensoberbece. Por isso, os fariseus foram duramente criticados por Jesus, pois conheciam a letra da Lei, mas não conheciam o Espírito que estava na origem da letra e da palavra e, portanto, não permitiam que o Espirito Santo vivificasse e renovasse o poder da palavra nas pessoas que a ouviam e nem facilitavam que o amor de Deus fosse revelado às essas pessoas (Mt. 15.1-19; 16.1-12; 19.3-12; 21.1-45; 23.2-39).
Paulo compreende que a Letra da Lei foi e é importante em si para o que ela propoe ensinar ou revelar o desejo de Deus quanto à Dispensação da Lei, mas o ministério do Espírito Santo – atuando agora na Dispensação da Graça – não somente superou o conhecimento da Letra da Lei escrita em tábuas de pedra como também proporcionou que nos tornassemos CARTAS VIVAS que revelam a nossa participação como ministros de uma nova aliança no conhecimento de Deus, não somente pela Letra da Palavra, mas pelo testemunho do Espírito que VIVIFICA.
“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente, como não será de maior glória o ministério do Espírito! (2Co 3.2-8)
Se não ficássemos repetindo versículos como simples platéia desatenta, mas lêssemos o contexto do versículo, veríamos claramente que Paulo não está falando da letra dos estudos, da teologia, das ciências exatas ou humanas, mas da Letra da Lei Mosaica escrita para orientar o povo de Israel, mas que em si revelava o ministério da morte (para os que desobedeciam a Lei).
As Escrituras na Plenitude da Graça devem revelar o ministério da Vida, cujo o Espírito Santo é mestre por excelência. Deus e sua Palavra não mudaram, mas quanto ao trato com os tempos e nas dispensações, a nova aliança veio para cumprir a Lei já escrita, não pela força estrita e intriseca da Lei, mas por Jesus Cristo, que pelo amor cumpriu toda a justiça (Gl. 5.23). Paulo mestre da Lei, discipulo de Gamaliel, conhecedor profundo dos ensinos e da doutrina dos fariseus, teólogo capacitado e apóstolo de Cristo (Rm. 11.1; Fp. 3.5,6) compreendia que o conhecimento sem amor é fútil e inútil para a edificação do Reino de Deus:
“No que se refere às coisas sacrificadas a ídolos, reconhecemos que todos somos senhores do saber. O saber ensoberbece, mas o amor edifica. Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber. Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele (e conhece sua vontade)”. (1Co. 8.1-4 ss)
O conhecimento humano e as ciências humanas, por sua vez, nem sempre podem entender ou conhecer as coisas espirituais. Somente quem recebe o Espírito de Deus e a mente de Cristo, entende e compreende as coisas do Espírito de Deus:
“Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo”. (1Co 2.10-16)
Quem ensina deve compreender que será cobrado duas vezes mais. Tiago (3.1) recomendou aos cristãos que nem todos poderiam se tornar mestres: “Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres (gr. Didaskaloi = didáskaloi/ ensinador), sabendo que havemos de receber maior juízo”.
Caso ensinemos doutrinas e caminhos errados para o povo de Deus, até mesmo se esquecermos de avisar dos perigos que podem atingir os indoutos – omitir o ensino (Ez. 3.16-27), Deus nos cobrará.
“Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. (Lc. 12.48)
3
Conclusão:
A palavra exortação (gr. nouqesia = nouthesia) significa, convidar a mente a refletir sobre o que é correto. Outro termo, mais usado por Paulo é paraklhsis (paráklesis), no sentido de consolar os ouvintes e convidá-los a colocar para fora o que não edifica. Paulo solicitava a Timóteo que exortasse a Igreja a se manter na fé e que ele, Timóteo deveria ser o exemplo dos fiéis.
“Ordena e ensina estas coisas. Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te exemplo dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes. [...] Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros. [...] Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”.
(1Tm 4.11-16; 2Tm 2.1 e 2; 3.14-15)
Ninguém pode ter conhecimento de Deus se não conhece as Escrituras. Melhor ainda, se não conhece Jesus, o verdadeiro interprete e cumpridor das Escrituras:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Evita, igualmente, os falatórios inúteis e profanos, pois os que deles usam passarão a impiedade ainda maior [...] Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão... correção... educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2Tm 2.15-16; 3.16-17)
A sabedoria e o conhecimento de Deus não podem e não devem trazer contenda, nem ressentimento e, menos ainda, dissensões na Igreja. Se cada um assumir verdadeiramente o dom de Deus concedido gratuitamente para a edificação do Corpo de Cristo, não alimentará a inveja e as lutas internas para provar quem pode mais na Igreja.
Tiago (3.13 ss) pode nos ajudar nisso:
“Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.”
Os que profetizam devem levar em alta consideração os que evangelizam. Os evangelistas devem cooperar constantemente com os que fazem missão. Os missionários e missionárias devem considerar a autoridade (não autoritarismo) de seus líderes e precisam colaborar com aqueles que legitimamente pastoreiam o rebanho de Deus em Cristo. Os pastores devem ter em alta estima os mestres e os doutores, não com honrarias fúteis, mas honrá-los duplicadamente pelo esmêro em ensinar:
“Os bispos sejam irrepreensíveis... apto para ensinar [...] Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino”. (1Tm 3.2; 5.17)
Precisamos conhecer Deus, seja pela Letra e pelo Espírito, seja pela experiência e pelo Espírito ou pela revelação da Palavra e pelo Espírito. São três maneiras legitimas para conhecermos Deus, ou melhor, Deus se dá a conhecer por nós! Terminemos então com o cântico sacerdotal de Paulo:
“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. (Cl. 3.16, 17)
Kurie Elehson! Criste Elehson!
[Senhor, Cristo tende misericórdia de nós]
Texto de Marcos José Martins
(Professor, Teólogo, Musicista, Escritor e Conferencista)
Notas Bibliográficas:
[1] A formulação da Teologia Arminiana surge quando Jacob Armínio (Tiago Arminio), grande teólogo calvinista, foi convidado a refutar os ensinos contra a doutrina da predestinação incondicional, sendo ele mesmo professor dessa matéria. Então, Armínio se convenceu de que a predestinação era restrita, sujeita não pela conformidade predeterminada e inquestionável da soberania de Deus, mas sujeita às escolhas humanas. O que está no centro da questão não é se Deus sabe ou se Deus não sabe quem será salvo ou condenado, mas que Deus em sua presciencia soberana indica pistas para que a humanidade possa se desviar da condenação, delegando aos seres humanos a capacidade de fazer as escolhas que poderão levá-los à salvação. O fato do ser humano ter capacidade de “livre-escolha” e “livre-juízo/arbítrio” para decidir denota o infinito amor de Deus e a infindável justiça divina em prol dos seres humanos. Conhecemos essa teologia pelo conceito de “Graça Previniente”. Realmente o ser humano não pode fazer nada para obter a salvação, mas pode trabalhar em sinergia com Deus, para aceitar a salvação, pela graça mediante a fé. Afirmar que somente alguns podem ser salvos e que Deus já havia predestinados outros para condenação é incompatível com o caráter de Deus, que é amoroso, compassivo, bom, justo e deseja que todos se salvem!
Conferir também em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arminianismo
[2] HAIGHT, Roger. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003. 576 p. (p.205)
[3] A etimologia grega da palavra dom (gr. Carisma = Charisma), deriva da palavra graça (caris = Charis). O termo “graça” significa favor não merecido. O termo “dom” significa favor que alguém recebe sem qualquer mérito próprio (Strong: 5486). Qualquer cristão (ã) que julga ter dons espirituais porque “pagou o preço” para tê-lo, é arrogante e imaturo espiritualmente. Os dons são presentes de Deus para nós. Viver uma vida de consagração, oração e jejum não nos faz merecedores dos dons, mas nos ajudam a progredir neles, para a glória daquele que nos chamou e capacitou para andarmos em boas obras. Os frutos de justiça produzidos em parceria com o Espírito Santo nos faz ser cheios do Espírito Santo, mas é um esforço inútil se não compreendermos o princípio da Graça Salvadora.
[4] Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p. p. 719
[5] Id., ibid., 1995. p. 648
Bibliografia consultada e indicada:
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual da Harpa Cristã. São Paulo, CPAD, 1ª ed. 1999. 240 p.
Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. SBB. 1999: 2005.
Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. 1573 p.
Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p
GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do NT grego/português. (Trad. Julio Zabatiero). São Paulo: Edições Vida Nova. 228 p.
HINÁRIO. Harpa Cristã. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), 1981. 13ª. Edição. (Com música).
KIRST, Nelson; SCHWANTES, Milton (orgs.). Dicionário hebraico-português & aramaico-português. 21. ed. S. Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2008. 305 p.
TAYLOR, William Carey. Dicionário do Novo Testamento grego. 10. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2001. 247 p.
Outras fontes bibliográficas:
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arminianismo
O escritor da Segunda Epístola de Pedro começa e termina sua narrativa teológica dessa maneira:
2 Pe. 1.1 Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, 2 graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor.
2 Pe. 3.17 Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; 18 antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.
Provavelmente essa epístola foi escrita para os novos judeus-cristãos na diáspora (dispersão). Os que estavam na dispersão precisavam compreender a essência da fé que fortalece mesmo em tribulações ou perseguições (Cf. 1Pe. 4.12 ss). A chamada para se manter firme na fé e na verdade, antes proclamada pelos servos de Deus, são os temas centrais da epístola (2 Pe. 1.12; 2.2, 21; 3.2). Outro subtema do livro é a relação entre o crescer na graça e o crescer no conhecimento, como uma busca pela experiência com Deus, mas também como um compreender o agir e o amor de Deus revelado em e por Jesus Cristo (2 Pe. 1.3, 8; 2.20-21; 3.18).
Esboço de Assuntos deste Seminário Temático:
1. Crescendo na Graça
1.1 Etimologia - Graça
1.2 Origens da Graça
1.3 Evidências da Graça
1.4 Possibilidades da graça em nós
2. Crescendo no Conhecimento
2.1 Etimologia - Conhecimento
2.2 Origens do conhecimento/ sabedoria
2.3 Conhecimento de Deus
2.4 O Conhecimento e os dons edificam o corpo de Cristo
Conclusão
1. CRESCENDO NA GRAÇA: O (a) cristão (ã) é como qualquer outro ser vivo que necessita crescer, precisa entender que ainda está se desenvolvendo. Uma das faces desse desenvolvimento é compreender o impacto da graça de Deus e de Jesus Cristo em nossas vidas.
1.1 Etimologia: A palavra graça (Caris = Charis) aparece 158 vezes no NT. Graça tem como sinônimo as palavras favor e generosidade e na sua forma pós-fixa surge o termo graciosidade. Graça não tem nada a ver com futilidade. Não é porque é Graça que precisa ter conotação de barata ou algo de pequeno valor.
1.2 Origens da Graça: Pedro chama os fiéis para que compreendam, pratiquem, se desenvolvam e vivam na/ pela e por graça. A graça é uma dádiva de Deus para toda a humanidade. Um presente dado para pessoas que não tinham méritos em si mesmas para recebê-la. A graça não é aceita sem o intermédio da fé, tipificada aqui como uma “mão” que recebe o presente ofertado (Ef. 2.8).
A humanidade procurou de toda a forma ofertar (por sacrifícios, oferendas e adoração) presentes para as divindades, no intuito de reconciliar, agradar ou apaziguar os “deuses”. Contudo, a graça de Deus é um presente do próprio Deus ofertado à humanidade, pelos méritos do próprio Deus revelados na encarnação do Cristo de Deus, a imagem divina impressa na humanidade de Jesus de Nazaré (Gl. 2.16; 1 Jo. 4.9 ss). O Deus-Pai é o Ser que emana graça (1 Pe. 5.10), o Deus-Espírito derrama e promove essa graça sobre os corações (Rm. 5.5; Gl. 4.6; Fp. 4.7; Zc. 12.10; Hb. 10.29) e o Deus-Filho é a encarnação e protótipo da graça de Deus revelada como verdade (Jo. 1.14) numa nova dispensação (Ef. 1.10; 3.2; Cl. 1.25). Parecer e ser semelhante a Cristo é viver o aspecto estético da graça. O Único Deus-Trino se revela pessoalmente como o autor, mantenedor e consumador da graça. Tudo feito por Ele, passa por nós, transcende, se inova e volta para Ele!
1.3 Evidências da Graça: A graça faz com que o (a) cristão (ã) repense sua vida e sua história como uma nova oportunidade para conhecer a Deus e viver seu amor! É uma oportunidade de ser salvo da corrupção que há no mundo. John Wesley afirmava que a graça de Deus é uma graça salvadora/ preventiva, denotando assim o aspecto soteriológico da graça, na teologia arminiana.[1] Todos (as) que estão cheios da graça, conseqüentemente demonstram essa posse legítima produzindo frutos de justiça, de pacificidade e de santificação (Rm. 6.22; Gl. 5.22; Fp. 1.11; Hb. 12.11-16; cf. Jo. 15.1-3). Paulo escrevendo aos crentes de Colossos (1.3-29) associa vários elementos ao desenvolvimento da graça em nós:
a) A graça e o testemunho da fé, para vivermos de forma digna para agradar a Deus (vs. 3-4, 10);
b) A graça, a esperança e verdade do evangelho (vs. 5-6);
c) A graça e os frutos produzidos e amadurecidos (v. 6, 10);
- O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e temperança.
d) A graça e o entendimento da graça e da verdade (v. 6);
e) A graça e o amor no Espírito (v. 8);
f) A graça e o transbordamento do pleno conhecimento da vontade de Deus (v. 9, 10);
g) A graça, a sabedoria e a inteligência espiritual (v. 9);
h) A graça, o poder (para servir), a perseverança, a longanimidade e a alegria (v. 10-11);
i) A graça, a reconciliação e santificação (v. 22);
j) A graça, a permanência e a firmeza da fé (v. 23);
k) A graça e a perfeição cristã (v. 28).
l) A graça e o crescimento em ações de graças (cf. 2.7)
A graça de Cristo é acumulativa, expansiva e inclusiva. Tudo que recebemos – em prosperidade e espiritualidade no corpo de Cristo - é conseqüência da graça. A graça precisa ser difundida e distribuída gratuita e deliberadamente (Mt. 10.8; Rm. 3.24). Os que vivem a graça liberam perdão naturalmente, pois experimentaram o perdão dado por Deus através de Jesus Cristo. Esse é o aspecto ético da graça.
Mas, a graça também é validada pelo aspecto profético, quando ela repousa à sobra da cruz. Os outros aspectos da graça não seriam o que são sem o Evangelho da Cruz. Graça sem cruz torna o evangelho vazio de sentido, sem abnegação! Cruz sem a Graça nos faz retornar aos rudimentos sacrificiais da Lei e à lógica retribuitiva e meritória que ostenta a vaidade, o favoritismo e a acepção das pessoas. Cruz, Graça e Evangelho devem andar juntos para reforçar o Caráter Profético de uma Geração Cristã Saudável em todas as áreas da vida! A graça não pode ser barata e a cruz não pode ser negligenciada. A cruz pode estar vazia, mas nunca poderá ser esvaziada de seu sentido soteriológico, estético, ético e profético. Conferir Tabela abaixo:
ASPECTO
EFEITO
REFERÊNCIA
Soteriológico - Salvação
At 15.11; 2Tm 1.9 Tt 2.11; 3.5; Ef 2.8
Estético - Imagem de Deus
Rm. 8.29; Cl. 3.10; 1Ts 1.6; 2Co 3.18
Ético - Gratuidade distribuitiva
Mt. 10.8; 1Pe. 4.10
Profético - Anúncio e revelação
Mt. 10.38; 16.24; Gl. 5.11; Ef. 2.16; Cl. 1.20; 2.14
1.4 Possibilidades da graça em nós: Cristo é o nosso modelo para crescer em graça e conhecimento:
“Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele [...] E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas [...] E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. (Lc. 2. 40 e 52)
Pensar Deus, que é a própria graça, o principio da sabedoria e o verbo eterno, cuja sua estatura está nas alturas excelsas (o Altissimo) e que abre mão de toda sua glória e se esvazia (ekenwsen = ekenosen) de todo o seu poder divino – na pessoa de seu Filho Unigenis (uion ton monogenh = uion ton monogenê) – para se tornar um ser humano (Fp. 2.5 ss; Jo. 1.1 ss), passível da aprendizagem didática da casa de seus pais, da sinagoga e da sociedade judaica nos dá os parâmetros possíveis para o crescimento.
Deus não precisaria crescer em graça, estatura e conhecimento, mas humilhou-se a si mesmo, na pessoa do Filho, na forma de servo e experimentou as mesmas fases de crescimento e amadurecimento intelectual, emocional e espiritual, humanamente falando.
Ao passar por tudo isso, Deus encarnado humano, provou-nos que é possível crescer e amadurecer como seres humanos e, consequentemente fazermos obras maiores que ele fez (Jo. 14.12). Se fez pecado, simples e fraco (Mt. 11.28-30; Rm. 8.13; Gl. 1.4; 2Co. 5.21) pela gratuidade do amor do Pai.
Muitos cristãos (ãs) ainda não comprendem que para experimentarmos a gratuidade do amor de Deus precisamos reconhecer que somos fracos e necessitados quando dependemos somente de nós mesmos ou somos escravos de nossas más escolhas.
Testemunhar a Graça não é só esperar ter uma vida de vitória e triunfalismo. O apóstolo Paulo testemunhou a graça, mesmo em momento de fraqueza e perseguição:
2Co. 12.7 E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar. 8 Acerca do qual três vezes orei ao Senhor, para que se desviasse de mim. 9 E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. 10 Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte.
[Cf. tb. Fp. 4.6-19; 2Co. 4.7-18].
Paulo, por fim, aconselha que além de crescer na graça, Timóteo deveria se fortalecer na graça (2 Tm. 2.1). Que a graça, maravilhosa graça, possa sempre superabundar em nós, não por causa da abundância de pecados, mas pela perseverança da fé e na maturação do fruto do Espirito Santo que opera em nós!
O crescimento é tanto possível como necessário.
2. CRESCENDO NO CONHECIMENTO: Enquanto a Vinda de Cristo não acontece, necessitamos crescer em tudo para chegarmos à estatura de homem/ mulher perfeito conforme a justa medida de Cristo (Ef. 4.13; 1 Co. 16.13). Crescer na graça, no conhecimento, na fé, na sabedoria e progredir nos dons inevitavelmente andam juntos (1Sm. 2.26; Pv. 1.5; Lc. 2.40, 52; 1Co. 14.12; Ef. 4.15; Cl. 1.10; 1Ts. 1.3; 4.1; 2Pe. 3.18).
2.1 Etimologia: A palavra conhecimento/ sabedoria (heb. יָדַע = Yada’; gr. gnosen = Gnósen ou Sofia = sofia) permeia praticamente todos os livros da Bíblia. Desde a árvore do conhecimento (Gn. 2.9) até o conhecimento do nome oculto do Messias (Ap. 19.12) na Vinda de sua Glória. A palavra pode ter sentidos diversos, mas os principais conceitos têm a ver com os verbos (e seus sinônimos) saber, conhecer, revelar algo oculto/ novo, instruir-se, perceber etc.
2.2 Origens do conhecimento/ sabedoria: Podemos destacar a sabedoria divina e a sabedoria humana. “E disse Deus”. O Verbo/ a palavra (דְבַר = Davar) é o principio da sabedoria (יָדַע = Yada”) divina.
O sábio do livro de Provérbios narra a trajetória da Sabedoria na eternidade, na história e sua habitação no ser humano (Pv. 8.1ss). Aliás, é no livro de Provérbios que mais se discursa sobre a origem, a trajetória e a finalidade da sabedoria/ conhecimento. A outra sabedoria é a humana. Esta provém da primeira, pois Deus doou à humanidade a capacidade de pensar, raciocinar e criar! A sabedoria humana pode estar em plena sintonia quando procura aprender com Deus, aprender de Deus e aprender coisas úteis para agradar a Deus e servir a si mesmo e – ao mesmo tempo – aos demais seres vivos que compõem a criação. A medicina, a história, a música, a metalurgia, a agricultura, a pecuária etc (Gn. 4.20-22) fazem parte da capacidade de criação do ser humano. Faz parte do acervo de conhecimento produzido, mantido e ampliado pela humanidade.
Ambas as sabedorias (divina e humana) podem trabalhar em conjunto! Contudo, a sabedoria humana é passageira, parcial e temporal e jamais poderá sobrepor a sabedoria divina. A sabedoria humana está sujeita aos seus caprichos, quando estiver fora dos parâmetros da sabedoria divina para o conhecimento do bem!
2.3 Conhecimento de Deus: Todos os escritores bíblicos sempre enfatizaram a necessidade dos homens conhecerem a Deus. Adão conhecia Deus face a face (Gn. 3.8, 9), Abraão foi chamado de amigo de Deus (Tg. 2.23), Moisés falava diretamente com Deus (Ex. 33.11), Enoque (Gn. 5.24) e Elias (2 Re. 2.11) andaram com Deus e Deus os tomou para si.
Os profetas Oséias, Isaías, e Jeremias criticaram veementemente os lideres políticos e religiosos e o povo de Israel-Judá porque não procuraram conhecer Deus e se desviaram do conhecimento da Sua vontade.
O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende [...] Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e as suas próprias obras fazem às escuras, e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece? (Is. 1.3; 29.15)
Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizaram por Baal e andaram atrás de coisas de nenhum proveito [...] Deveras, o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não inteligentes; são sábios para o mal e não sabem fazer o bem [...] Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor [...] curvam a língua, como se fosse o seu arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade, porque avançam de malícia em malícia e não me conhecem, diz o Senhor. (Jr. 2.8; 4.22; 8.7; 9.3)
Ouvi a palavra do Senhor, vós, filhos de Israel, porque o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus [...] O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Os. 4.1, 6)
Os profetas Isaías e Jeremias chegam a revelar a arrogância do povo de Deus, cujo olhos, a boca, a mente (coração) e os ouvidos estavam longe do conhecimento sobre Deus.
Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo [...] Mas não atenderam, não inclinaram os ouvidos; antes, endureceram a cerviz, para não me ouvirem, para não receberem disciplina. (Is. 6.10; Jr. 17.23)
O profeta Oséias aconselha o povo de Deus para que o mesmo possa conhecer Deus:
Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. (Os. 6.3)
Jesus ensinava por parábolas, mas os líderes e uma grande parcela das multidões que o ouvia não compreendiam e não entendiam, pois endureciam seus corações para não conhecerem a Deus.
[...] Os discípulos lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido [...] falo por parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. 14 De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías:
Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados. Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram. (Mt. 13.10-17)
2.4 O Conhecimento e os dons da Trindade edificam o corpo de Cristo: No Livro de Mateus (11.25-30) vemos “Jesus [...] louvando o Pai por ocultar essas coisas [do Reino] dos sábios... e revelá-las aos pequeninos”.[2]
Neste mesmo texto Jesus declara que conhece o Pai e que o Pai o conhece! Jesus é o único ser que conheceu o Pai, sua doutrina e sua vontade (Mt 6.10; Jo 4.34; 5.30; 6.38; 7.17-19; 8.19 ss; 17.25). Por isso, Deus agradou capitular n’ Ele todas as coisas, fazendo-O cabeça da criação [restituindo-o o poder sobre ela] e também da Igreja (Cl. 1.13-23. cf. vs. 17-18). Os apóstolos desejavam ardentemente que os cristãos conhecessem a vontade de Deus.
“Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação (1Pe 2.2)... [Mas] cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo (Cl. 2.8)... Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo (Gl 4.3). Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade que alguém vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido (Hb 5.12)... Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus ( Hb. 6.1)... Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lança em rosto; e ser-lhe-á dada (Tg. 1.5)”.
A Igreja recebeu gratuitamente - não por méritos[3] - os dons do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esses dons em conjunto e simetricamente devem edificar e fortalecer a Igreja em sua missão. É coerente pensar que Deus não se esqueceria de equipar e capacitar o seu povo com ministérios, habilidades, talentos e dons relacionados ao conhecimento, ensino, exortação e doutrinação da Igreja de Cristo. Paulo, pela inspiração do Espírito de Deus, desejava que os cristãos recebessem e progredissem nos dons da Trindade. Paulo classifica três dons do Espírito com a busca do conhecimento, entendimento, discernimento e sabedoria.
Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo [...] Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil. Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência (conhecimento) [...] o dom de discernir os espíritos [...] Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer [...] Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir [neles], para a edificação da igreja”. (1Co 12.4, 7-8, 10-11; Cf. tb. 1 Ts. 4.1)
Quando falamos dos dons do Pai encontramos os dons de Ensino e Exortação:
“tendes... diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; o que ensina esmere-se no fazê-lo; o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria [...] Torna-te, pessoalmente, exemplo de boas obras. No ensino, mostra integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito”. [...] “aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino”.
(Rm. 12.3, 6-8; 1Tm. 4.13 e Tt 2.7)
Nos dons ministeriais concedidos por Cristo encontramos o ofício de mestre:
apostolous [apóstolos = missionários], profhtas [profetas], euaggelistas [evangelistas], poimenas [pastores] e didaskalous [mestres/ doutores].[4] (Ef. 4.11)
apostolous [apóstolos = missionários], profhtas [profetas], e didaskalous [mestres/ doutores]. [5] (1Co 12.28)
Dons Espirituais, ministeriais e eclesiais (vocacionais) ► Conhecimento
Provém do:
Tipo de Dom:
Referências:
PAI
Ensino e Exortação
1Tm. 4.13; Tt. 2.7
FILHO
Docência e instrução
Ef. 4.11; Mt. 4.23; 7.29
ESPÍRITO
Sabedoria, conhecimento e discernimento
1Co 12.4, 7-8, 10-11
Apesar de muitos não gostarem, principalmente os que só vivem “o espiritual”, foi o próprio Cristo que elegeu quem deveria ensinar a Igreja pela letra e pelo Espírito. Claro que o conhecimento sem orientação do Espirito ensoberbece. Por isso, os fariseus foram duramente criticados por Jesus, pois conheciam a letra da Lei, mas não conheciam o Espírito que estava na origem da letra e da palavra e, portanto, não permitiam que o Espirito Santo vivificasse e renovasse o poder da palavra nas pessoas que a ouviam e nem facilitavam que o amor de Deus fosse revelado às essas pessoas (Mt. 15.1-19; 16.1-12; 19.3-12; 21.1-45; 23.2-39).
Paulo compreende que a Letra da Lei foi e é importante em si para o que ela propoe ensinar ou revelar o desejo de Deus quanto à Dispensação da Lei, mas o ministério do Espírito Santo – atuando agora na Dispensação da Graça – não somente superou o conhecimento da Letra da Lei escrita em tábuas de pedra como também proporcionou que nos tornassemos CARTAS VIVAS que revelam a nossa participação como ministros de uma nova aliança no conhecimento de Deus, não somente pela Letra da Palavra, mas pelo testemunho do Espírito que VIVIFICA.
“Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente, como não será de maior glória o ministério do Espírito! (2Co 3.2-8)
Se não ficássemos repetindo versículos como simples platéia desatenta, mas lêssemos o contexto do versículo, veríamos claramente que Paulo não está falando da letra dos estudos, da teologia, das ciências exatas ou humanas, mas da Letra da Lei Mosaica escrita para orientar o povo de Israel, mas que em si revelava o ministério da morte (para os que desobedeciam a Lei).
As Escrituras na Plenitude da Graça devem revelar o ministério da Vida, cujo o Espírito Santo é mestre por excelência. Deus e sua Palavra não mudaram, mas quanto ao trato com os tempos e nas dispensações, a nova aliança veio para cumprir a Lei já escrita, não pela força estrita e intriseca da Lei, mas por Jesus Cristo, que pelo amor cumpriu toda a justiça (Gl. 5.23). Paulo mestre da Lei, discipulo de Gamaliel, conhecedor profundo dos ensinos e da doutrina dos fariseus, teólogo capacitado e apóstolo de Cristo (Rm. 11.1; Fp. 3.5,6) compreendia que o conhecimento sem amor é fútil e inútil para a edificação do Reino de Deus:
“No que se refere às coisas sacrificadas a ídolos, reconhecemos que todos somos senhores do saber. O saber ensoberbece, mas o amor edifica. Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber. Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele (e conhece sua vontade)”. (1Co. 8.1-4 ss)
O conhecimento humano e as ciências humanas, por sua vez, nem sempre podem entender ou conhecer as coisas espirituais. Somente quem recebe o Espírito de Deus e a mente de Cristo, entende e compreende as coisas do Espírito de Deus:
“Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo”. (1Co 2.10-16)
Quem ensina deve compreender que será cobrado duas vezes mais. Tiago (3.1) recomendou aos cristãos que nem todos poderiam se tornar mestres: “Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres (gr. Didaskaloi = didáskaloi/ ensinador), sabendo que havemos de receber maior juízo”.
Caso ensinemos doutrinas e caminhos errados para o povo de Deus, até mesmo se esquecermos de avisar dos perigos que podem atingir os indoutos – omitir o ensino (Ez. 3.16-27), Deus nos cobrará.
“Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. (Lc. 12.48)
3
Conclusão:
A palavra exortação (gr. nouqesia = nouthesia) significa, convidar a mente a refletir sobre o que é correto. Outro termo, mais usado por Paulo é paraklhsis (paráklesis), no sentido de consolar os ouvintes e convidá-los a colocar para fora o que não edifica. Paulo solicitava a Timóteo que exortasse a Igreja a se manter na fé e que ele, Timóteo deveria ser o exemplo dos fiéis.
“Ordena e ensina estas coisas. Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te exemplo dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes. [...] Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros. [...] Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”.
(1Tm 4.11-16; 2Tm 2.1 e 2; 3.14-15)
Ninguém pode ter conhecimento de Deus se não conhece as Escrituras. Melhor ainda, se não conhece Jesus, o verdadeiro interprete e cumpridor das Escrituras:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Evita, igualmente, os falatórios inúteis e profanos, pois os que deles usam passarão a impiedade ainda maior [...] Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão... correção... educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2Tm 2.15-16; 3.16-17)
A sabedoria e o conhecimento de Deus não podem e não devem trazer contenda, nem ressentimento e, menos ainda, dissensões na Igreja. Se cada um assumir verdadeiramente o dom de Deus concedido gratuitamente para a edificação do Corpo de Cristo, não alimentará a inveja e as lutas internas para provar quem pode mais na Igreja.
Tiago (3.13 ss) pode nos ajudar nisso:
“Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.”
Os que profetizam devem levar em alta consideração os que evangelizam. Os evangelistas devem cooperar constantemente com os que fazem missão. Os missionários e missionárias devem considerar a autoridade (não autoritarismo) de seus líderes e precisam colaborar com aqueles que legitimamente pastoreiam o rebanho de Deus em Cristo. Os pastores devem ter em alta estima os mestres e os doutores, não com honrarias fúteis, mas honrá-los duplicadamente pelo esmêro em ensinar:
“Os bispos sejam irrepreensíveis... apto para ensinar [...] Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino”. (1Tm 3.2; 5.17)
Precisamos conhecer Deus, seja pela Letra e pelo Espírito, seja pela experiência e pelo Espírito ou pela revelação da Palavra e pelo Espírito. São três maneiras legitimas para conhecermos Deus, ou melhor, Deus se dá a conhecer por nós! Terminemos então com o cântico sacerdotal de Paulo:
“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. (Cl. 3.16, 17)
Kurie Elehson! Criste Elehson!
[Senhor, Cristo tende misericórdia de nós]
Texto de Marcos José Martins
(Professor, Teólogo, Musicista, Escritor e Conferencista)
Notas Bibliográficas:
[1] A formulação da Teologia Arminiana surge quando Jacob Armínio (Tiago Arminio), grande teólogo calvinista, foi convidado a refutar os ensinos contra a doutrina da predestinação incondicional, sendo ele mesmo professor dessa matéria. Então, Armínio se convenceu de que a predestinação era restrita, sujeita não pela conformidade predeterminada e inquestionável da soberania de Deus, mas sujeita às escolhas humanas. O que está no centro da questão não é se Deus sabe ou se Deus não sabe quem será salvo ou condenado, mas que Deus em sua presciencia soberana indica pistas para que a humanidade possa se desviar da condenação, delegando aos seres humanos a capacidade de fazer as escolhas que poderão levá-los à salvação. O fato do ser humano ter capacidade de “livre-escolha” e “livre-juízo/arbítrio” para decidir denota o infinito amor de Deus e a infindável justiça divina em prol dos seres humanos. Conhecemos essa teologia pelo conceito de “Graça Previniente”. Realmente o ser humano não pode fazer nada para obter a salvação, mas pode trabalhar em sinergia com Deus, para aceitar a salvação, pela graça mediante a fé. Afirmar que somente alguns podem ser salvos e que Deus já havia predestinados outros para condenação é incompatível com o caráter de Deus, que é amoroso, compassivo, bom, justo e deseja que todos se salvem!
Conferir também em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arminianismo
[2] HAIGHT, Roger. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003. 576 p. (p.205)
[3] A etimologia grega da palavra dom (gr. Carisma = Charisma), deriva da palavra graça (caris = Charis). O termo “graça” significa favor não merecido. O termo “dom” significa favor que alguém recebe sem qualquer mérito próprio (Strong: 5486). Qualquer cristão (ã) que julga ter dons espirituais porque “pagou o preço” para tê-lo, é arrogante e imaturo espiritualmente. Os dons são presentes de Deus para nós. Viver uma vida de consagração, oração e jejum não nos faz merecedores dos dons, mas nos ajudam a progredir neles, para a glória daquele que nos chamou e capacitou para andarmos em boas obras. Os frutos de justiça produzidos em parceria com o Espírito Santo nos faz ser cheios do Espírito Santo, mas é um esforço inútil se não compreendermos o princípio da Graça Salvadora.
[4] Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p. p. 719
[5] Id., ibid., 1995. p. 648
Bibliografia consultada e indicada:
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual da Harpa Cristã. São Paulo, CPAD, 1ª ed. 1999. 240 p.
Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. SBB. 1999: 2005.
Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. 1573 p.
Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p
GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do NT grego/português. (Trad. Julio Zabatiero). São Paulo: Edições Vida Nova. 228 p.
HINÁRIO. Harpa Cristã. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), 1981. 13ª. Edição. (Com música).
KIRST, Nelson; SCHWANTES, Milton (orgs.). Dicionário hebraico-português & aramaico-português. 21. ed. S. Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2008. 305 p.
TAYLOR, William Carey. Dicionário do Novo Testamento grego. 10. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2001. 247 p.
Outras fontes bibliográficas:
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arminianismo
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GRAÇA E CONHECIMENTO
VERDADEIROS (AS) ADORADORES (AS) EM MEIO A UMA GERAÇÃO CORROMPIDA
VERDADEIROS (AS) ADORADORES (AS)
EM MEIO A UMA GERAÇÃO CORROMPIDA
(Rf. 2Pe 1.4)
“... Não vos conformeis com este século (mundo), mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Paulo, apóstolo (In: Rm. 12:2)
PEQUENO COMENTÁRIO SOBRE O TEMA PRINCIPAL: O apóstolo Paulo roga a comunidade cristã em Roma – e por herança, todas as comunidades cristãs de todos os tempos, para refletir sobre o presente tempo (gr. aiwni - aioni).1 Recomenda aos cristãos e às cristãs para que não se conformem (tomem a forma de) com as coisas do presente século/ mundo, mas que sejam transformados (gr. metamorfousqe = metamorfousthe) pela renovação da vossa mente, ou seja, o vosso modo de pensar. Precisamos da metamorfose mental para compreendermos o impacto do mundo espiritual no nosso dia-a-dia. Não somente a mente (o modo de pensar), mas também o nosso espírito (o modo de sentir) e o nosso corpo (o modo de agir) serão alvos de transformação contínua, podendo assim oferecer a totalidade de nosso ser como sacríficio – em ações de graças – vivo, santo, agradável e irreprensível a Deus (1 Ts. 5.23).
Esboço de Assuntos deste Seminário Temático:
1. Os Elementos da Verdadeira Adoração
1.1 Verdadeira adoração
1.2 A verdadeira divindade
1.3 O verdadeiro culto
1.4 A verdadeiro espaço da adoração e da palavra
2. A verdadeira adoração requer novo nascimento
2.1 Adoradores (as) buscam a santidade
2.2 Adoradores (as) buscam imitar Cristo
2.3 Adoradores (as) assumem a vocação
Conclusão
1. Os Elementos da Verdadeira Adoração: Mais do que nunca, os conselhos de Paulo vêm nos ajudar a repensar a maneira de prestarmos uma adoração verdadeira, um culto coerente e racional,2 uma liturgia inclusiva, gestos corporais vivos, santos e agradáveis a Deus num presente tempo de confusão, compulsão e convulsão espiritual. Portanto, para realizarmos um culto coerente se faz necessário relacionar a verdadeira adoração com a verdadeira divindade, com o verdadeiro culto e com o verdadeiro espaço sagrado. Se houver, contradição entre estes quatro elementos (adoração, divindade, culto e espaço sagrado), a verdadeira prática adoradora não acontecerá.
1.1 Verdadeira adoração: Poderíamos achar muita arrogância supor que qualquer pessoa possa nos ensinar como devemos adorar (gr. proskunew - proskyneõ = inclinar, reverenciar, se curvar, beijar os pés Cf. Sl. 132.7). Contudo, do livro de Gênesis (4.26; 22.5) ao livro de Apocalipse (19.4) encontramos vestígios da verdadeira e da falsa adoração a Deus. O próprio Deus, segundo a fé cristã, regulamenta a quem se deve adorar e porque se deve adorar (Gn. 20.5; 23.24; Sl. 95.6; Is. 43.21). Há uma convulsão espiritual quase que histérica para definir quem sabe adorar melhor ou adorar mais. Quais igrejas têm verdadeiros ministérios de louvor ou quais igrejas só comportam uma pequena equipe de louvor que, muitas vezes são simples canais de divulgação dos “grandes ministérios e bandas de louvor”. A verdadeira adoração não tem nada a ver com a ostentação, teatralização, consumismo desvairado, glamour ou com a fama. A verdadeira adoração não é algo que nasce no exterior e que é implantada numa noite de louvor ou numa campanha de avivamento. Nasce de dentro para fora! Surge, segundo o salmista, de um coração contrito e a partir de um espírito quebrantado, de um sentir racional (Sl. 24.4; 34.18; 47.7; 51.10; 111.1; 139.1 ss) e de um avivamento contínuo em qualquer circunstância (2Sm. 12. 15-25; Hc. 3.2, 16-19).
Jesus, quando tentado no deserto (Mt. 4.1-11), recusa várias propostas feitas pelo diabo, inclusive de prestar falsa adoração a uma falsa divindade, em um falso culto. Aqui temos uma inquietação! Não basta adorar a divindade verdadeira, mas adorá-la com verdadeira adoração num culto legítimo (gr. Latreia – latréia – cf. Hb. 9.1).
1.2 A verdadeira divindade: A verdadeira divindade é aquela que é divina em si mesma. Na fé judaico-cristã-islâmica,3 só existe um Deus, que não pode ser adorado e nem ser representado por imagens, estátuas ou figuras (abstratas ou concretas) produzidas por mente ou mãos humanas (Ex. 20.4; Dt. 6.4; Sl. 115; Rm. 1.18 ss; Ap. 13; Surata 31.13; 33.33).
Não terás outros deuses diante de mim [...] Não farás para ti imagem de escultura. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás... (Ex. 20.3-5)
Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniqüidade [...] E permanecei tranqüilas em vossos lares, e não façais exibições, como as da época da idolatria; observai a oração, pagai o zakat , obedecei a Deus e ao seu Mensageiro, porque Deus só deseja afastar de vós a abominação, ó membros da Casa, bem como purificar-vos integralmente. (Surata 31.13; 33.33)
No livro de Deuteronômio (6.4) observamos o Shemá Yisrael que atesta que ADONAI é o Único Deus.4 Yahwéh [heb. יְהוָה] é na tradição hebraica o EU SOU o que EU SOU (Eu serei o que serei),5 o Deus que existe em si, por e para si mesmo antes que houvesse os céus e a Terra (a criação, os anjos e os humanos – Is. 43.13; 45.5 ss). A falsa divindade é aquela que é concebida por humanos e é potencializada e divinizada, tomando o lugar e a primazia de Deus (fama, glória, riquezas, dinheiro/ “mamon”, poder, mercado, amigos, sexo etc).
A falsa divindade nunca é em si e para si mesma. A divindade falsa sempre tem um objetivo que vem antes e depois dela. Portanto, a verdadeira divindade é aquela que não necessita de explicações ou aceitação por consenso ou por maioria de adeptos.
Nada tem o poder de proteger, justificar ou defender a divindade de Yahwéh, pois tudo e todos têm uma imagem de Deus que deve ser questionada diuturna e continuamente. Qualquer divindade que fala por si mesma, mas seu principio e finalidade é questionável, pois procura uma glória que não é sua (Jo. 7.18; Is. 42.8). Portanto é uma falsa divindade. O único ser que pode interpretar e revelar a verdadeira divindade foi e é a pessoa de Jesus Cristo (Mt. 4.10; Jo. 7.16-18; 2Co 3.18; 4.4; Cl. 1.15; ref. ao Espírito Santo 1Co 2.10 que interpreta as profundezas de Deus).
1.3 O verdadeiro culto: O verdadeiro culto ou liturgia (leitourgias = leitourgias) deve ser coerente às propostas que os próprios celebrantes se prestam a fazê-lo. Prestar culto a Deus em liturgia não significa engessar a celebração e sim dar à celebração uma dinâmica onde o povo sirva a Deus e se sirva em [e na] comunidade.
Muitos cultos têm fugido plenamente de seus propósitos. A Ceia [a], o batismo [b], ordenação de ministros [c], apresentação de crianças e cerimônias matrimoniais [d] ou fúnebres [e], que no culto cristão são cerimônias que visam ADORAR e GLORIFICAR a Deus pela comunhão [a], pela salvação [b], pela vocação recebida [c], pela renovação da comunidade [d] e pela esperança da ressurreição [e], não têm mais sentido, visto que só se tornaram um ajuntamento de pessoas, cada qual com objetivos diferentes. São cultos de adoração vazios e não são conseqüentemente didáticos. O culto se torna falso quando serve a propósitos escusos e arbitrários para promover qualquer outra coisa do que a adoração a Deus e a comunhão da comunidade cristã. Vários cultos cristãos hoje são direcionados a promover:
a) a política do Estado (Dn. 3; Ap. 13);
b) a adoração a seres celestiais como anjos (Cl. 2.18);
c) a adoração e a bajulação de homens (Rm 1.18ss; 1Ts 2.5-8);
d) a adoração a coisas abstratas (Mt. 6.24; 1 Tm. 6.10, por exemplo, o amor ao dinheiro) e;
e) a adoração do “mercado” de consumismo espiritual compulsivo e desenfreado (Is. 29.13; Ap. 17-18).
A liturgia verdadeira é aquela que é inclusiva, onde pessoas (meninas e meninos, moças e rapazes, mulheres e homens, idosas e idosos, com ou sem deficiência), dons, carismas e ministérios têm seu espaço garantido! Hinos clássicos e novos cânticos não podem viver numa tensão e concorrência constante.
Infelizmente, alguns “levitas”, agora ressuscitados do sacerdócio da Antiga Aliança (Lv. 10.1 ss), tumultuam o culto com cânticos e mantras intermináveis (Hb. 7.11), “os apóstolos” que ressurgiram com a polpa dos sacerdotes israelitas aaraônicos (e às vezes faraônicos) imitam símbolos e uma mística copiada de um tempo imemorial (Is. 29.13; Jr. 2.8) que nem os próprios judeus hodiernos praticam e “os profetas” da última hora que antecipam as palavras que Deus “ainda” não mandou falar (Is. 30.10; Jr. 5.13, 31; 6.13; 23.16; Ez. 13.1-23) devem saber, pelo mesmo é coerente pensar assim, que o culto verdadeiro deve ter a participação do povo simples e até dos iletrados na letra, mas que não são iletrados nas coisas do espírito. Se há verdade no louvor, tudo é feito para glória de Deus! O verdadeiro culto preza pela participação de todos os membros da comunidade, desde a tenra infância até a idade avançada (Harpa Cristã, Hino 124 § 6 e “7”).
1.4 O verdadeiro espaço da adoração e da palavra: Múltiplas espiritualidades estão sendo vivenciadas no mesmo espaço. A pluralidade de temporalidades está na realidade do tempo presente (saudades, expectativas, atos proféticos etc).
Todos/ as podem participar do culto com cânticos, orações, salmos, danças, testemunho e saudação (1 Co. 12.1; 14.1 ss; Ef. 4.12 ss; 5.19; Cl. 3.16). Porém, não podemos deixar de convidar a divindade verdadeira para participar deste culto verdadeiro (Ap. 3.20; Hb. 4.7), pois a Palavra de Deus – representante inspirada e legitimada pelo Espírito da Verdade, deve ter seu TEMPO e ESPAÇO garantidos na liturgia. O espaço da Palavra não pode ser fracionado a poucos minutos. O mesmo tempo e espaço que temos para cânticos, testemunhos e devocionais, deve ser ofertado para Deus e sua Palavra.
Para que haja coerência em um culto racional que preza pela ordem e decência (1 Co. 14.40) devemos tirar toda a confusão espiritual do mesmo. “Se eu canto, se tu cantas, se ele canta, se nós cantamos, quando todos cantam, quando Deus poderá falar conosco através da sua Palavra? (Sl. 119.9; Rm. 10.17).
Devemos levar em conta também que desde a antiguidade a humanidade procura um lugar sagrado para adorar, seja em altares feitos de materiais diversos, tabernáculos, templos, sinagogas e casas. Jesus, num certo momento de seu ministério, se encontra discutindo a teologia da adoração com a mulher samaritana (Jo. 4.19 ss). Aquela mulher de Samaria, assim como os judeus de Jerusalém, acreditavam piamente que o lugar certo de adorar era só em suas respectivas cidades. Jesus resolve esse problema “teofânico-eclesiológico” mudando a tônica do discurso, para uma realidade “epifânico-escatológica” (Jo. 4.23) e “pneumatológica” (Jo. 4.23,24). Hoje, não existe melhor Templo e melhor lugar sagrado para a adoração do que o NOSSO CORPO e, de forma mais ampla, na UNIDADE do CORPO de CRISTO (Rm 8.9; 1Co 3.16,17; 6.19; 2Co 6.16; Ef 2.21; Tg 4.5; Ap. 21.3).
***
2. A verdadeira adoração requer novo nascimento: Seguindo as orientações de Paulo podemos aplicar para a espiritualidade cristã uma total mudança de pensamento. Ser adorador implica indiscutivelmente, no novo nascimento, na imitação de Cristo e na aceitação da vocação de Deus em nossa vida. Essas três categorias nos conduz à mudança do modo de pensar nesse presente tempo, para que assim possamos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
2.1 Adoradores (as) buscam a santidade: A vontade de Deus é que busquemos a santidade (1Ts 4.3; 2 Co. 7.1). O escritor aos Hebreus diz que sem a correção dos erros (Hb. 12.10), sem a comunhão (paz com todos) e sem a santificação, ninguém poderá ver a Deus (Hb. 12.14). Pedro também relaciona a busca da santidade com a mudança de atitude e com a imitação de Deus (1 Pe. 1.14, 15; cf. tb. Rm. 8.29; Cl. 3.10).
Ser convidado a imitar o próprio Deus (Ef. 5.1) é uma honra, aliás, é um convite para participarmos da sua glória, da sua virtude e da sua natureza divina e, através dos méritos de Cristo, nos livrarmos da “corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe. 1.3-11; 1 Ts. 1.6; Cl. 2.14; Hb. 6.12).
A Santidade Adoradora não se mede pela quantidade de sacrificios, jejuns e orações, mas pela qualidade das nossas atitudes, sejam elas fisicas, mentais, sentimentais e/ ou espirituais. O poder dos adoradores está na virtude do Espírito Santo. A virtude do Espírito Santo nos concede o carater de Cristo, o amor do Pai e o fruto do próprio Espírito de Deus (Gl. 5.22 ss; Ef. 2.4 ss; 2 Pe. 1.3 ss).
2.2 Adoradores (as) buscam imitar Cristo: Buscar a santidade é prontamente aceitar a imagem do Deus invisivel revelada em Jesus de Nazaré (2 Co. 4.4; Cl. 1.15; 3.10; Rm. 8.29). Para que sejamos verdadeiros adoradores/ as necessitamos exalar e sermos o bom perfume de Cristo (2 Co. 2.15), imitar o carater de Cristo, aprender dele e seguí-lo (Mt. 11.28; Mt. 16.24). A dificuldade reside quando não imitamos a Deus nas coisas que Ele nos proporciona a imitá-lo. Preferimos imitar estilos, modismos, personalidades, “ídolos”, ritmos e práticas momentâneas e descartáveis do que imitar a Deus, o Eterno. Infelizmente, essa prática mimética não corresponde à uma atitude adoradora!
2.3 Adoradores (as) assumem a vocação: Assumir uma vocação é atender uma voz que chama para uma ação (latim: vocare). Na etimologia da palavra Igreja (gr. Ekklesia) encontramos a junção de dois termos ligados ao termo vocação. Do verbo grego (kalew) “Kaleo” (chamar) surge o termo (klesis) “Klésis” (chamado/ vocacionado/ convocado) somado à preposição “ek” (do, para fora). Paulo salienta que temos uma vocação pela qual fomos chamados (gr: Eklethete; cf. Ef. 4.1).6 Fomos chamados para fora de uma geração corrupta (Fp. 2.15) para sermos filhos da obediência como uma geração eleita (1Pe. 2.9) na congregação de vocacionados (1Co 1.26).
Reconhecer os dons e ministérios de Deus em nós é, sem dúvida, assumir a nossa vocação.
“Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância, pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” Pedro, apóstolo (In: 1 Pe. 1.14)
Conclusão:
O mundo criado é uma maravilha e cosmeticamente belo. A palavra MUNDO (gr. Kosmos, transl. Kosmos) é o termo que define o habitat dos seres animados (biologicamente) e de objetos não-animados (geologia). O mundo pode significa a raça humana, as pessoas que habitam o planeta Terra. Aliás, a palavra mundo significa o próprio planeta Terra, ou Globo terrestre (Global). É no mundo, no bom sentido da palavra, que nascemos, vivemos, crescemos – passamos pela adolescencia, juventude, fase adulta e morremos... conhecemos Deus, nossa família, amigos, pessoas que nos dizem ser inimigas etc. Este é o mundo que Deus amou de tal maneira... “não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo. 3).
A palavra mundo também pode ser utilizado como substantivo ou adjetivo: o mundo dos esportes, o mundo da moda, o mundo dos negócios, o mundo das religiões etc. Na filosofia platônica, existe o Mundo das idéias (reminiscências) e o Mundo Real. Na Teologia Judaico-Cristã o mundo pode ter TRÊS definições básicas: a) o mundo caótico; b) o mundo cosmético; c) o mundo pós-morte. Geralmente, no cristianismo, o mundo é citado junto com outros substantivos como, por exemplo, o mundo e o diabo, o mundo e a carne, o mundo e o pecado, o mundo e o inferno, o mundo e a morte. O mundo, no sentido ruim do termo, representa TUDO que nós afasta da comunhão com Deus. Se torna caótico, pois não existe uma ordem que visa glorificar e adorar a Deus.
A atual geração acumula indiscriminadamente os pecados pessoais e estruturais de todos os tempos e lugares. É a globalização, melhor ainda, a mundanização das práticas que afastam cada vez mais a humanidade da verdadeira adoração e consequentemente da verdadeira Divindade. Se há algo que Deus ainda procura são adoradores (as). “Eia! Vejamos os que os filhos dos homens estão fazendo!” ou “Adam, onde você está?” continuam sendo expressões atualíssimas para refletirmos onde, como e de que maneira adoramos. Sejamos uma geração eleita no meio de uma geração corrupta, corrompida e corrompidora.
Kurie Elehson! Criste Elehson!
[Senhor, Cristo tende misericórdia de nós]
Texto de Marcos José Martins - Evangelista
(Professor, Teólogo, Musicista, Escritor e Conferencista)
Notas Bibliográficas:
[1]Aioni deriva da expressão grega “aion” (eterno). Dependendo do contexto, esta expressão pode estar se referindo ao que é [tempo] Eterno ou ao que é “eterno” enquanto dura ou permanece. [Subst. Dativo masc. Subordinativa]
[2]Englobamos aqui todos os tipos de inteligência: a) racional; b) emocional e c) espiritual. Conquanto que sejam verdadeiras no tocante à glorificação de Deus-Trino e que produzam contextualmente beneficios aos seres humanos.
[3]Contudo, o Al Corão não admite uma Trindade divina na tradição bíblico-teológica cristã e não existe nenhuma referência ao Espírito Santo na tradição judaíco-cristã como uma pessoa divina. Jesus é visto como Messias, mas não é Deus Aláh (Surata 5.72-73). A esse tipo de monoteísmo denominamos de monoteísmo radical. (Consulta em 23 de março de 2010). Conferir também em Fonte:http://www.cacp.org.br/Islamismo/artigo.aspx?lng=PT-BR&article=347&menu=4&submenu=1
[4] שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד ◄. Este texto afirma a crença judaica no monoteísmo. Essa confissão de fé hebraica transliterada é assim pronunciada “Shemá Yisrael: Adonai Elohêynu, Adonai Echad”.
[5]אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה ◄. Essa expressão significa literalmente “EU SOU O QUE SOU”. Deus é o Único Ser que existe e subsiste em si. Mesmo. A pronuncia dessa expressão hebraica transliterada é “Ehyeh asher ehyeh”.
[6] Não há aqui nenhum erro na regra gramatical da língua portuguesa, uma redundância. A expressão tem a ver com um reforço da idéia da vocação.
_______________________________________________
Bibliografia consultada e indicada:
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual da Harpa Cristã. São Paulo, CPAD, 1ª ed. 1999. 240 p.
Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. SBB. 1999: 2005.
Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. 1573 p.
Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p
GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do NT grego/português. (Trad. Julio Zabatiero). São Paulo: Edições Vida Nova. 228 p.
HINÁRIO. Harpa Cristã. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), 1981. 13ª. Edição. (Com música).
KIRST, Nelson; SCHWANTES, Milton (orgs.). Dicionário hebraico-português & aramaico-português. 21. ed. S. Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2008. 305 p.
RAMOS, Luiz Carlos (Orgs.). Anuário Litúrgico: Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. S. B. Campo, SP: EDITEO. Anual. 2007.
TAYLOR, William Carey. Dicionário do Novo Testamento grego. 10. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2001. 247 p.
EM MEIO A UMA GERAÇÃO CORROMPIDA
(Rf. 2Pe 1.4)
“... Não vos conformeis com este século (mundo), mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Paulo, apóstolo (In: Rm. 12:2)
PEQUENO COMENTÁRIO SOBRE O TEMA PRINCIPAL: O apóstolo Paulo roga a comunidade cristã em Roma – e por herança, todas as comunidades cristãs de todos os tempos, para refletir sobre o presente tempo (gr. aiwni - aioni).1 Recomenda aos cristãos e às cristãs para que não se conformem (tomem a forma de) com as coisas do presente século/ mundo, mas que sejam transformados (gr. metamorfousqe = metamorfousthe) pela renovação da vossa mente, ou seja, o vosso modo de pensar. Precisamos da metamorfose mental para compreendermos o impacto do mundo espiritual no nosso dia-a-dia. Não somente a mente (o modo de pensar), mas também o nosso espírito (o modo de sentir) e o nosso corpo (o modo de agir) serão alvos de transformação contínua, podendo assim oferecer a totalidade de nosso ser como sacríficio – em ações de graças – vivo, santo, agradável e irreprensível a Deus (1 Ts. 5.23).
Esboço de Assuntos deste Seminário Temático:
1. Os Elementos da Verdadeira Adoração
1.1 Verdadeira adoração
1.2 A verdadeira divindade
1.3 O verdadeiro culto
1.4 A verdadeiro espaço da adoração e da palavra
2. A verdadeira adoração requer novo nascimento
2.1 Adoradores (as) buscam a santidade
2.2 Adoradores (as) buscam imitar Cristo
2.3 Adoradores (as) assumem a vocação
Conclusão
1. Os Elementos da Verdadeira Adoração: Mais do que nunca, os conselhos de Paulo vêm nos ajudar a repensar a maneira de prestarmos uma adoração verdadeira, um culto coerente e racional,2 uma liturgia inclusiva, gestos corporais vivos, santos e agradáveis a Deus num presente tempo de confusão, compulsão e convulsão espiritual. Portanto, para realizarmos um culto coerente se faz necessário relacionar a verdadeira adoração com a verdadeira divindade, com o verdadeiro culto e com o verdadeiro espaço sagrado. Se houver, contradição entre estes quatro elementos (adoração, divindade, culto e espaço sagrado), a verdadeira prática adoradora não acontecerá.
1.1 Verdadeira adoração: Poderíamos achar muita arrogância supor que qualquer pessoa possa nos ensinar como devemos adorar (gr. proskunew - proskyneõ = inclinar, reverenciar, se curvar, beijar os pés Cf. Sl. 132.7). Contudo, do livro de Gênesis (4.26; 22.5) ao livro de Apocalipse (19.4) encontramos vestígios da verdadeira e da falsa adoração a Deus. O próprio Deus, segundo a fé cristã, regulamenta a quem se deve adorar e porque se deve adorar (Gn. 20.5; 23.24; Sl. 95.6; Is. 43.21). Há uma convulsão espiritual quase que histérica para definir quem sabe adorar melhor ou adorar mais. Quais igrejas têm verdadeiros ministérios de louvor ou quais igrejas só comportam uma pequena equipe de louvor que, muitas vezes são simples canais de divulgação dos “grandes ministérios e bandas de louvor”. A verdadeira adoração não tem nada a ver com a ostentação, teatralização, consumismo desvairado, glamour ou com a fama. A verdadeira adoração não é algo que nasce no exterior e que é implantada numa noite de louvor ou numa campanha de avivamento. Nasce de dentro para fora! Surge, segundo o salmista, de um coração contrito e a partir de um espírito quebrantado, de um sentir racional (Sl. 24.4; 34.18; 47.7; 51.10; 111.1; 139.1 ss) e de um avivamento contínuo em qualquer circunstância (2Sm. 12. 15-25; Hc. 3.2, 16-19).
Jesus, quando tentado no deserto (Mt. 4.1-11), recusa várias propostas feitas pelo diabo, inclusive de prestar falsa adoração a uma falsa divindade, em um falso culto. Aqui temos uma inquietação! Não basta adorar a divindade verdadeira, mas adorá-la com verdadeira adoração num culto legítimo (gr. Latreia – latréia – cf. Hb. 9.1).
1.2 A verdadeira divindade: A verdadeira divindade é aquela que é divina em si mesma. Na fé judaico-cristã-islâmica,3 só existe um Deus, que não pode ser adorado e nem ser representado por imagens, estátuas ou figuras (abstratas ou concretas) produzidas por mente ou mãos humanas (Ex. 20.4; Dt. 6.4; Sl. 115; Rm. 1.18 ss; Ap. 13; Surata 31.13; 33.33).
Não terás outros deuses diante de mim [...] Não farás para ti imagem de escultura. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás... (Ex. 20.3-5)
Ó filho meu, não atribuas parceiros a Deus, porque a idolatria é grave iniqüidade [...] E permanecei tranqüilas em vossos lares, e não façais exibições, como as da época da idolatria; observai a oração, pagai o zakat , obedecei a Deus e ao seu Mensageiro, porque Deus só deseja afastar de vós a abominação, ó membros da Casa, bem como purificar-vos integralmente. (Surata 31.13; 33.33)
No livro de Deuteronômio (6.4) observamos o Shemá Yisrael que atesta que ADONAI é o Único Deus.4 Yahwéh [heb. יְהוָה] é na tradição hebraica o EU SOU o que EU SOU (Eu serei o que serei),5 o Deus que existe em si, por e para si mesmo antes que houvesse os céus e a Terra (a criação, os anjos e os humanos – Is. 43.13; 45.5 ss). A falsa divindade é aquela que é concebida por humanos e é potencializada e divinizada, tomando o lugar e a primazia de Deus (fama, glória, riquezas, dinheiro/ “mamon”, poder, mercado, amigos, sexo etc).
A falsa divindade nunca é em si e para si mesma. A divindade falsa sempre tem um objetivo que vem antes e depois dela. Portanto, a verdadeira divindade é aquela que não necessita de explicações ou aceitação por consenso ou por maioria de adeptos.
Nada tem o poder de proteger, justificar ou defender a divindade de Yahwéh, pois tudo e todos têm uma imagem de Deus que deve ser questionada diuturna e continuamente. Qualquer divindade que fala por si mesma, mas seu principio e finalidade é questionável, pois procura uma glória que não é sua (Jo. 7.18; Is. 42.8). Portanto é uma falsa divindade. O único ser que pode interpretar e revelar a verdadeira divindade foi e é a pessoa de Jesus Cristo (Mt. 4.10; Jo. 7.16-18; 2Co 3.18; 4.4; Cl. 1.15; ref. ao Espírito Santo 1Co 2.10 que interpreta as profundezas de Deus).
1.3 O verdadeiro culto: O verdadeiro culto ou liturgia (leitourgias = leitourgias) deve ser coerente às propostas que os próprios celebrantes se prestam a fazê-lo. Prestar culto a Deus em liturgia não significa engessar a celebração e sim dar à celebração uma dinâmica onde o povo sirva a Deus e se sirva em [e na] comunidade.
Muitos cultos têm fugido plenamente de seus propósitos. A Ceia [a], o batismo [b], ordenação de ministros [c], apresentação de crianças e cerimônias matrimoniais [d] ou fúnebres [e], que no culto cristão são cerimônias que visam ADORAR e GLORIFICAR a Deus pela comunhão [a], pela salvação [b], pela vocação recebida [c], pela renovação da comunidade [d] e pela esperança da ressurreição [e], não têm mais sentido, visto que só se tornaram um ajuntamento de pessoas, cada qual com objetivos diferentes. São cultos de adoração vazios e não são conseqüentemente didáticos. O culto se torna falso quando serve a propósitos escusos e arbitrários para promover qualquer outra coisa do que a adoração a Deus e a comunhão da comunidade cristã. Vários cultos cristãos hoje são direcionados a promover:
a) a política do Estado (Dn. 3; Ap. 13);
b) a adoração a seres celestiais como anjos (Cl. 2.18);
c) a adoração e a bajulação de homens (Rm 1.18ss; 1Ts 2.5-8);
d) a adoração a coisas abstratas (Mt. 6.24; 1 Tm. 6.10, por exemplo, o amor ao dinheiro) e;
e) a adoração do “mercado” de consumismo espiritual compulsivo e desenfreado (Is. 29.13; Ap. 17-18).
A liturgia verdadeira é aquela que é inclusiva, onde pessoas (meninas e meninos, moças e rapazes, mulheres e homens, idosas e idosos, com ou sem deficiência), dons, carismas e ministérios têm seu espaço garantido! Hinos clássicos e novos cânticos não podem viver numa tensão e concorrência constante.
Infelizmente, alguns “levitas”, agora ressuscitados do sacerdócio da Antiga Aliança (Lv. 10.1 ss), tumultuam o culto com cânticos e mantras intermináveis (Hb. 7.11), “os apóstolos” que ressurgiram com a polpa dos sacerdotes israelitas aaraônicos (e às vezes faraônicos) imitam símbolos e uma mística copiada de um tempo imemorial (Is. 29.13; Jr. 2.8) que nem os próprios judeus hodiernos praticam e “os profetas” da última hora que antecipam as palavras que Deus “ainda” não mandou falar (Is. 30.10; Jr. 5.13, 31; 6.13; 23.16; Ez. 13.1-23) devem saber, pelo mesmo é coerente pensar assim, que o culto verdadeiro deve ter a participação do povo simples e até dos iletrados na letra, mas que não são iletrados nas coisas do espírito. Se há verdade no louvor, tudo é feito para glória de Deus! O verdadeiro culto preza pela participação de todos os membros da comunidade, desde a tenra infância até a idade avançada (Harpa Cristã, Hino 124 § 6 e “7”).
1.4 O verdadeiro espaço da adoração e da palavra: Múltiplas espiritualidades estão sendo vivenciadas no mesmo espaço. A pluralidade de temporalidades está na realidade do tempo presente (saudades, expectativas, atos proféticos etc).
Todos/ as podem participar do culto com cânticos, orações, salmos, danças, testemunho e saudação (1 Co. 12.1; 14.1 ss; Ef. 4.12 ss; 5.19; Cl. 3.16). Porém, não podemos deixar de convidar a divindade verdadeira para participar deste culto verdadeiro (Ap. 3.20; Hb. 4.7), pois a Palavra de Deus – representante inspirada e legitimada pelo Espírito da Verdade, deve ter seu TEMPO e ESPAÇO garantidos na liturgia. O espaço da Palavra não pode ser fracionado a poucos minutos. O mesmo tempo e espaço que temos para cânticos, testemunhos e devocionais, deve ser ofertado para Deus e sua Palavra.
Para que haja coerência em um culto racional que preza pela ordem e decência (1 Co. 14.40) devemos tirar toda a confusão espiritual do mesmo. “Se eu canto, se tu cantas, se ele canta, se nós cantamos, quando todos cantam, quando Deus poderá falar conosco através da sua Palavra? (Sl. 119.9; Rm. 10.17).
Devemos levar em conta também que desde a antiguidade a humanidade procura um lugar sagrado para adorar, seja em altares feitos de materiais diversos, tabernáculos, templos, sinagogas e casas. Jesus, num certo momento de seu ministério, se encontra discutindo a teologia da adoração com a mulher samaritana (Jo. 4.19 ss). Aquela mulher de Samaria, assim como os judeus de Jerusalém, acreditavam piamente que o lugar certo de adorar era só em suas respectivas cidades. Jesus resolve esse problema “teofânico-eclesiológico” mudando a tônica do discurso, para uma realidade “epifânico-escatológica” (Jo. 4.23) e “pneumatológica” (Jo. 4.23,24). Hoje, não existe melhor Templo e melhor lugar sagrado para a adoração do que o NOSSO CORPO e, de forma mais ampla, na UNIDADE do CORPO de CRISTO (Rm 8.9; 1Co 3.16,17; 6.19; 2Co 6.16; Ef 2.21; Tg 4.5; Ap. 21.3).
***
2. A verdadeira adoração requer novo nascimento: Seguindo as orientações de Paulo podemos aplicar para a espiritualidade cristã uma total mudança de pensamento. Ser adorador implica indiscutivelmente, no novo nascimento, na imitação de Cristo e na aceitação da vocação de Deus em nossa vida. Essas três categorias nos conduz à mudança do modo de pensar nesse presente tempo, para que assim possamos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
2.1 Adoradores (as) buscam a santidade: A vontade de Deus é que busquemos a santidade (1Ts 4.3; 2 Co. 7.1). O escritor aos Hebreus diz que sem a correção dos erros (Hb. 12.10), sem a comunhão (paz com todos) e sem a santificação, ninguém poderá ver a Deus (Hb. 12.14). Pedro também relaciona a busca da santidade com a mudança de atitude e com a imitação de Deus (1 Pe. 1.14, 15; cf. tb. Rm. 8.29; Cl. 3.10).
Ser convidado a imitar o próprio Deus (Ef. 5.1) é uma honra, aliás, é um convite para participarmos da sua glória, da sua virtude e da sua natureza divina e, através dos méritos de Cristo, nos livrarmos da “corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe. 1.3-11; 1 Ts. 1.6; Cl. 2.14; Hb. 6.12).
A Santidade Adoradora não se mede pela quantidade de sacrificios, jejuns e orações, mas pela qualidade das nossas atitudes, sejam elas fisicas, mentais, sentimentais e/ ou espirituais. O poder dos adoradores está na virtude do Espírito Santo. A virtude do Espírito Santo nos concede o carater de Cristo, o amor do Pai e o fruto do próprio Espírito de Deus (Gl. 5.22 ss; Ef. 2.4 ss; 2 Pe. 1.3 ss).
2.2 Adoradores (as) buscam imitar Cristo: Buscar a santidade é prontamente aceitar a imagem do Deus invisivel revelada em Jesus de Nazaré (2 Co. 4.4; Cl. 1.15; 3.10; Rm. 8.29). Para que sejamos verdadeiros adoradores/ as necessitamos exalar e sermos o bom perfume de Cristo (2 Co. 2.15), imitar o carater de Cristo, aprender dele e seguí-lo (Mt. 11.28; Mt. 16.24). A dificuldade reside quando não imitamos a Deus nas coisas que Ele nos proporciona a imitá-lo. Preferimos imitar estilos, modismos, personalidades, “ídolos”, ritmos e práticas momentâneas e descartáveis do que imitar a Deus, o Eterno. Infelizmente, essa prática mimética não corresponde à uma atitude adoradora!
2.3 Adoradores (as) assumem a vocação: Assumir uma vocação é atender uma voz que chama para uma ação (latim: vocare). Na etimologia da palavra Igreja (gr. Ekklesia) encontramos a junção de dois termos ligados ao termo vocação. Do verbo grego (kalew) “Kaleo” (chamar) surge o termo (klesis) “Klésis” (chamado/ vocacionado/ convocado) somado à preposição “ek” (do, para fora). Paulo salienta que temos uma vocação pela qual fomos chamados (gr: Eklethete; cf. Ef. 4.1).6 Fomos chamados para fora de uma geração corrupta (Fp. 2.15) para sermos filhos da obediência como uma geração eleita (1Pe. 2.9) na congregação de vocacionados (1Co 1.26).
Reconhecer os dons e ministérios de Deus em nós é, sem dúvida, assumir a nossa vocação.
“Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância, pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” Pedro, apóstolo (In: 1 Pe. 1.14)
Conclusão:
O mundo criado é uma maravilha e cosmeticamente belo. A palavra MUNDO (gr. Kosmos, transl. Kosmos) é o termo que define o habitat dos seres animados (biologicamente) e de objetos não-animados (geologia). O mundo pode significa a raça humana, as pessoas que habitam o planeta Terra. Aliás, a palavra mundo significa o próprio planeta Terra, ou Globo terrestre (Global). É no mundo, no bom sentido da palavra, que nascemos, vivemos, crescemos – passamos pela adolescencia, juventude, fase adulta e morremos... conhecemos Deus, nossa família, amigos, pessoas que nos dizem ser inimigas etc. Este é o mundo que Deus amou de tal maneira... “não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo. 3).
A palavra mundo também pode ser utilizado como substantivo ou adjetivo: o mundo dos esportes, o mundo da moda, o mundo dos negócios, o mundo das religiões etc. Na filosofia platônica, existe o Mundo das idéias (reminiscências) e o Mundo Real. Na Teologia Judaico-Cristã o mundo pode ter TRÊS definições básicas: a) o mundo caótico; b) o mundo cosmético; c) o mundo pós-morte. Geralmente, no cristianismo, o mundo é citado junto com outros substantivos como, por exemplo, o mundo e o diabo, o mundo e a carne, o mundo e o pecado, o mundo e o inferno, o mundo e a morte. O mundo, no sentido ruim do termo, representa TUDO que nós afasta da comunhão com Deus. Se torna caótico, pois não existe uma ordem que visa glorificar e adorar a Deus.
A atual geração acumula indiscriminadamente os pecados pessoais e estruturais de todos os tempos e lugares. É a globalização, melhor ainda, a mundanização das práticas que afastam cada vez mais a humanidade da verdadeira adoração e consequentemente da verdadeira Divindade. Se há algo que Deus ainda procura são adoradores (as). “Eia! Vejamos os que os filhos dos homens estão fazendo!” ou “Adam, onde você está?” continuam sendo expressões atualíssimas para refletirmos onde, como e de que maneira adoramos. Sejamos uma geração eleita no meio de uma geração corrupta, corrompida e corrompidora.
Kurie Elehson! Criste Elehson!
[Senhor, Cristo tende misericórdia de nós]
Texto de Marcos José Martins - Evangelista
(Professor, Teólogo, Musicista, Escritor e Conferencista)
Notas Bibliográficas:
[1]Aioni deriva da expressão grega “aion” (eterno). Dependendo do contexto, esta expressão pode estar se referindo ao que é [tempo] Eterno ou ao que é “eterno” enquanto dura ou permanece. [Subst. Dativo masc. Subordinativa]
[2]Englobamos aqui todos os tipos de inteligência: a) racional; b) emocional e c) espiritual. Conquanto que sejam verdadeiras no tocante à glorificação de Deus-Trino e que produzam contextualmente beneficios aos seres humanos.
[3]Contudo, o Al Corão não admite uma Trindade divina na tradição bíblico-teológica cristã e não existe nenhuma referência ao Espírito Santo na tradição judaíco-cristã como uma pessoa divina. Jesus é visto como Messias, mas não é Deus Aláh (Surata 5.72-73). A esse tipo de monoteísmo denominamos de monoteísmo radical. (Consulta em 23 de março de 2010). Conferir também em Fonte:http://www.cacp.org.br/Islamismo/artigo.aspx?lng=PT-BR&article=347&menu=4&submenu=1
[4] שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד ◄. Este texto afirma a crença judaica no monoteísmo. Essa confissão de fé hebraica transliterada é assim pronunciada “Shemá Yisrael: Adonai Elohêynu, Adonai Echad”.
[5]אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה ◄. Essa expressão significa literalmente “EU SOU O QUE SOU”. Deus é o Único Ser que existe e subsiste em si. Mesmo. A pronuncia dessa expressão hebraica transliterada é “Ehyeh asher ehyeh”.
[6] Não há aqui nenhum erro na regra gramatical da língua portuguesa, uma redundância. A expressão tem a ver com um reforço da idéia da vocação.
_______________________________________________
Bibliografia consultada e indicada:
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Manual da Harpa Cristã. São Paulo, CPAD, 1ª ed. 1999. 240 p.
Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. SBB. 1999: 2005.
Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. 1573 p.
Bíblia Sagrada. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Barueri: SBB, 2007. 978 p
GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do NT grego/português. (Trad. Julio Zabatiero). São Paulo: Edições Vida Nova. 228 p.
HINÁRIO. Harpa Cristã. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), 1981. 13ª. Edição. (Com música).
KIRST, Nelson; SCHWANTES, Milton (orgs.). Dicionário hebraico-português & aramaico-português. 21. ed. S. Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2008. 305 p.
RAMOS, Luiz Carlos (Orgs.). Anuário Litúrgico: Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. S. B. Campo, SP: EDITEO. Anual. 2007.
TAYLOR, William Carey. Dicionário do Novo Testamento grego. 10. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 2001. 247 p.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Sindrome Marginal Sócio-religiosa no Pentecostalismo Brasileiro
Sindrome Marginal Sócio-religiosa no Pentecostalismo
O Pentecostalismo surgiu à margem das igrejas denominacionais nos Estados Unidos e na América Latina – inclusive no Brasil[1] – como progrediu à margem das igrejas estatais, históricas e elitizadas na Europa (Escandinávia, Noruega e Suécia). Por isso surgem outras perguntas: Será o Pentecostalismo “um grito” somente religioso ou uma válvula de escape para uma religiosidade marginal? Ou será uma religiosidade que dá vazão a um grito maior, o grito dos excluídos do sistema cúltico – religioso (elitizado, denominacional e estatal) e social de uma época de transição, segregação e exclusão?
Assim, como no Pentecostes em Atos dos Apóstolos, o Pentecostalismo Moderno, numa leitura hermenêutica dos pioneiros[2], surge e se legitima na marginalidade (síndrome marginal), entre os pequenos e os que não são, para que, segundo os pioneiros, confunda os grandes e os que são. Isso se torna coerente com a leitura hermenêutica feita pelo próprio Pentecostalismo, pois suas raízes sociológicas são originárias em grupos de brancos pobres, de afrodescendentes e minorias étnicas imigrantes nos Estados Unidos. Constata-se assim que o Movimento Pentecostal que iniciou a partir do âmbito religioso, torna-se também um fenômeno sociológico[3]. Muitos sociólogos, historiadores, religiosos e teólogos têm elaborado pesquisas acerca desta dimensão sócio-religiosa do Pentecostalismo[4].
O Pentecostalismo Moderno ou Movimento de Fé Apostólica, oriundo da ruptura com os Movimentos de Santidade/ Holiness (meados do Séc. XIX), se projeta definitivamente[5] nas doutrinas difundidas por Charles F. Parham.
Parham foi diretor da Escola Bíblica Betel em Topeka, Kansas. Nesta Escola ele estimulou os/as seus/suas alunos/as a estudarem a Bíblia e encontrarem nela base para o seu ensinamento acerca da evidência inicial visível e/ ou externa do batismo com o Espírito Santo. Alguns de seus alunos alcançam a experiência pentecostal de “falar em outras línguas”[6] e rapidamente esta “novidade” se espalhou[7].
Existem muitas ocorrências anteriores ao movimento promovido por Parham, mas a difusão em escala global, ou internacional do Pentecostalismo, como salienta Paul Freston[8], se dá “definitivamente” a partir das doutrinas de Parham (no Kansas, 1900 e Houston,1905) e outros seguidores doutrinários como, por exemplo, William Seymour (em Los Angeles, 1906) e William Durham (em Chicago, 1907). Willian Seymour, que no ano de 1905 estava em Houston (Texas), ouviu a mensagem pentecostal pela primeira vez e, interessado por esse acontecimento, se matriculou na Escola Bíblica dirigida por Parham, recentemente instalada em Houston. Seymour, pregador holiness, mesmo sofrendo a segregação racial (filho de ex-escravo, cego de um olho e pobre estudava no lado de fora da sala de aulas – no corredor), estudou e aprendeu as doutrinas difundidas por Parham. A princípio, o pentecostalismo nos cultos promovidos em Houston, Texas, não conseguiu romper a questão da segregação racial. Paulo Barrera descreve Parham como “... um branco, racista e admirador da tenebrosa Ku-Klux-Klan” e Freston também descreve Parham sendo “... branco e racista, ligado à Ku-Klux-Klan”[9]. Galindo também menciona o menosprezo de Parham pelo negro Seymour[10].
Parham, em 1905, pregava a doutrina acerca do batismo com/ no Espírito Santo para auditórios de pessoas brancas enquanto que ele colocava Seymour para pregar para auditórios de pessoas negras. Contudo, a relação entre Parham e Seymour não durou um ano, pelo fato de Seymour iniciar a Missão de Fé Apostólica ao se mudar para Los Angeles em 1906. Após abril de 1906 Parham não teve um papel de realce no Movimento Pentecostal. Los Angeles é o novo e histórico espaço onde o Pentecostalismo repercute. Por um espaço de tempo a segregação racial, étnica e de gênero foi “abolida”. Apesar de perseguido e caluniado, Seymour consegue proclamar a mensagem pentecostal, expandindo e criando raízes dentro de grupos afrodescendentes e brancos pobres e minorias étnicas emigrantes-imigrantes. O próximo passo de Seymour após conseguir temporariamente (1906-1909) quebrar tabus (fenômeno inter-racial, miscigenação étnica e questão de gênero), é estabelecer uma liderança (masculina e feminina) que – como arautos e porta-vozes dessa nova expressão da fé cristã – espalhe a mensagem do Movimento por todo o mundo.
Os ciclos de emigrações/imigrações nacionais/estrangeiras certamente ajudaram na divulgação da mensagem pentecostal. Esta dinâmica sociológica proporcionou a expansão do Pentecostalismo Moderno.
William Joseph Seymour se tornou desde então o principal líder e ícone desse movimento, apesar da segregação racial. Considerando o período, ser um líder negro, cego, pobre e segregado, já nos traz um vestígio em qual ambiente nasce este movimento, ainda mais apoiado por lideranças femininas e marginalizadas. Mas a harmonia entre brancos e negros no Pentecostalismo não durou muito tempo. Já em 1914 houve novamente a cisão entre Igrejas Brancas e Igrejas Negras. Nem a “virtude do Espírito Santo”[11] conseguiu quebrar a ideologia de segregação racial sulista nos EUA no pós-guerra de Secessão. Por um momento – e nada além de um momento/ experiência – a segregação é esquecida e “superada” no culto pentecostal em Azuza Street, mas a liderança pentecostal até os dias atuais se omite e evita entrar nesta discussão étnico-social.
Para entendermos o que ocasionou a ruptura entre negros e brancos, precisamos analisar dois grupos que tiveram destaque dentro deste movimento incipiente. O primeiro grupos de destaque são as igrejas pentecostais que surgiram no meio afrodescendente[12] (As Igrejas da Confissão de Fé Apostólica e as Igrejas de Deus em Cristo) e as igrejas pentecostais independentes entre os brancos pobres e imigrantes (As Assembléias de Deus dos EUA) formam o segundo grupo. O pentecostalismo implantado no Brasil por Berg, Vingren (fundadores da Assembléia de Deus no Brasil) e Francescon (fundador da Congregação Cristã do Brasil) vem da ala branca do pentecostalismo norte-americano de viés reformado, contudo ainda não havia ocorrido a ruptura definitiva entre brancos e negros pentecostais norte-americanos. Essa ruptura só ocorreria definitivamente com a fundação das AD em 1914.
A Church of God in Christ (Igreja de Deus em Cristo) – fundada por Charles Mason – é a maior igreja pentecostal negra norte-americana de origem wesleyana e tem o dobro de membros das AD dos EUA de origem reformada. As AD dos EUA (coligação das igrejas pentecostais autônomas brancas dissidentes da Church of God in Christ fundada em 1914) assumiram a teologia da “Dupla Bênção” enquanto que as igrejas pentecostais de tradição wesleyana assumiram a teologia da “Tripa Bênção”.
Outras ramificações do Movimento Pentecostal surgiram dentro de muitas igrejas norte-americanas de confissão batistas, episcopais, luteranas, reformadas, congregacionalistas, metodistas[13] etc.
William Durham (morto em 1912), mentor do conceito da “Benção Dupla”, pastoreava a North Avenue Church (Igreja Batista da Avenida Norte), onde Gunnar Vingren “experimentou o seu pentecoste” em 1909. Neste mesmo lugar Luigi Francescon foi batizado com o Espírito Santo e na mesma cidade, Chicago, Vingren e Daniel Berg se conheceram[14].
Evidentemente que Durham não sabia quem eram estas três personagens tão importantes na construção da fé pentecostal no solo brasileiro. Vingren, Berg e Francescon certamente só participaram de uma ou outra reunião na Igreja da Avenida Norte, pastoreada por Durham.
O movimento da Rua Azuza conseguiu se apropriar de um ethos social fundante. Brancos pobres (geralmente brancos nativos, imigrantes europeus e hispânicos atrás do Sonho Americano) e negros (ex-escravos ou filhos de ex-escravos) são as bases do Movimento. É nitidamente uma religiosidade dos excluídos do sistema cúltico, social, econômico e político, numa época conturbada (transição, segregação, exclusão racial e étnica).
Apesar de compartilhar de matizes teológicas herdadas das Igrejas e movimentos pós-reforma e do protestantismo de missão, o Pentecostalismo, além de ter características peculiares, surge também numa época particular da história do mundo e do próprio cristianismo. As primeiras manifestações significativas do “Pentecostalismo Moderno” coincidem com:
(a) o período de imigração de estrangeiros para a Nova Terra, as Américas (meados do Século XIX início do Século XX);
(b) o período do Neo-Colonialismo Imperialista Europeu[15] que expandiram os reinos europeus sobre a Africa, a Ásia e América Latina[16];
(c) o período de efervescência teológica (liberais versus fundamentalistas etc)[17];
(d) o ciclo mundial de missões protestantes[18] e;
(e) Conferência Mundial de Missão de Edimburgo[19] (1910) em meados da primeira década do Séc. XX.
Então, podemos definir que o quadro histórico, em que está inserido a semente que será germinada a mensagem pentecostal moderna na periferia dos grupos étnico – religiosos, compreende desde o fim do “Segundo Grande Despertamento” (1790 – 1830)[20] até a Conferência de Edimburgo (1910)।
___________________________________BIBLIOGRAFIA
A fonte deste artigo esta na obra: MARTINS, Marcos José. A dimensão escatológica da hinologia clássica pentecostal. São Bernardo do Campo: [s.n.], 2008. 110 p. Bibliografia — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2008. pp. 18-23
[1] ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ. Vozes, 1995. p. 17-21.
[2] VINGREN, Ivar. Gunnar Vingren, o diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1973. 222 p. (p. 7, 63 e 92) & BERG, Daniel. Enviado por Deus: memórias de Daniel Berg. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 8ª. ed. 208 p. (p. 48, “as experiências da era apostólica são também para nossos dias”). Cf. tb. GALINDO, Florêncio. O fenômeno das seitas fundamentalistas. Tradução de José Maria de Almeida. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 201.
[3] Existem vários estudos que procuram enfatizar os aspectos sociais e formação de identidade religiosa pentecostal por isso indicamos as seguintes fontes bibliográficas essenciais (SOUZA, Beatriz Muniz de. A experiência da salvação: pentecostais em São Paulo. São Paulo. Editora Duas Cidades, 1969; D’ÉPINAY, Christian. Religião e espiritualidade e sociedade. Estudo sociológico do pentecostalismo latino-americano. In Cadernos do ISER 6, 1977; NOVAES, Regina Reyes. Os escolhidos de Deus: pentecostais, trabalhadores & cidadania. Rio de Janeiro, ISER – Marco Zero, 1985).
[4] Contudo, este trabalho não terá como tema central a questão sociológica, apesar de que dela se beba para direcioná-lo. Basearemos nossa pesquisa na área teológica a partir da perspectiva escatológica. Conferir esta dimensão sociológica em: CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: Organização e marketing de um empreendimento. Petrópolis, RJ: Vozes/Simpósio/UMESP, 1997. p.49 & ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 22.
[5] GROMACKI, Robert Glenn. Movimento moderno de línguas. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1972. 166 p. Gromacki trabalha o fenômeno desde 1100 a.E.C. até Azuza Street. Mas a ênfase dada pelo autor é o período pós-reforma da p. 31 - 40.
[6] OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil: por que mais de oito milhões de negros são pentecostais. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 28.
[7] GROMACKI, 1972. p. 37. Agnes Osman foi a primeira pessoa (mulher!) que buscou incessantemente pela glossolalia.
[8] FRESTON, Paul. Pentecostalismo . Belém, PA: UNIPOP, 1996. p. 3
[9] Id., ibid., p. 4
[10] GALINDO, Florêncio. O fenômeno das seitas fundamentalistas. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 92, 194. Cf. tb. Biografia de William Joseph Seymour. Site: www.yohanan.com.br. Disponível no endereço: www.yohanan.com.br/biografias/bio_willian.htm/biografias/bio_willian.htm. Acesso em 20/02/08.
[11] Atos 2, numa hermenêutica simples do texto bíblico, relata que o fenômeno da glossolalia e da xenolalia (línguas dos povos) conseguiu surpreender os peregrinos porque, de certa forma, unificou todas as línguas conhecidas no mesmo lugar, sem haver uma forma discriminatória ou segregacionalista, aliás ‘nós os podemos ouvir falar na nossa língua’. Ao contrário de Babel, Lucas, em Atos, compreende o fenômeno pentecostal (pós-pascal) como a unidade dos povos e nações do mundo de então pelo fenômeno das “línguas”.
[12] ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ. Vozes, 1995. p. 23. OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 29 & ALENCAR, Gedeon Freire de. Todo poder aos pastores, todo trabalho ao povo, e todo louvor a Deus, 2000 – Tese de Mestrado UMESP p. 58 – 62, definem que a Missão de Fé Apostólica é a expressão da fé pentecostal entre os negros e o nome Assembléias de Deus entre os brancos.
[13] GROMACKI, 1972. O autor descreve a interferência (ou inferência?) pentecostal dentro da eclesiologia do protestantismo histórico nos EUA.
[14] Não desejamos fazer aqui um relato sobre o processo de vinda visionária desses dois missionários ao Brasil, visto que muito se tem escrito sobre isso. Acerca da vinda histórica dos pioneiros Gunnar Vingren e Daniel Berg existem muitos marcos teóricos e referências biográficas e bibliográficas. Cito aqui a obra biográfica sobre Vingren em VINGREN, Ivar. Gunnar Vingren, o diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1973. p. 22 e a obra autobiográfica de BERG, Daniel. Enviado por Deus: memórias de Daniel Berg. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 8ª. ed. p. 31. Conferir também a obra de CONDE, Emilio. História das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro, 1960. 355 p.
[15] MORAES, José Geraldo Vinci de. História Geral e do Brasil: São Paulo, Atual Editora, 2003. 1ª. Edição. 496 p (cf. Neo-imperialismo Europeu p. 273 e imigração de europeus para os EUA p. 252); PEDRO, Antônio. História Geral. São Paulo, FTD, 1997. 392 p. (Cf. Neo-imperialismo Europeu, p. 258 -260);
[16] MOLTMANN, Jürgen. A vinda de Deus: escatologia cristã. Tradução de Nélio Schneider. São Leopoldo: UNISINOS, 2003. p. 19. “As potências européias erigiram os seus reinos mundiais na África, Ásia e América Latina e difundiram a civilização européia com fervor missionário messiânico”.
[17] OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2001. 668 p. (Discussão sobre as Teologias Liberal e Fundamentalista, p. 548-605) & HORDERN, William. Teologia contemporânea. Tradução de Roque Monteiro de Andrade. São Paulo: Hagnos, 2003. 319 p. (Desenvolve o contexto dessa tensão teológica nas pp. 74-79).
[18] EKSTROM, Bertil. História da missão: um guia de estudo da história missionária. Londrina, PR: Descoberta, 2001. 136 p. (pp. 68-103).
[19] SABANES PLOU, Dafne. Caminhos de unidade: itinerário do diálogo ecumênico na América Latina (1916-2001). São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. p. 20-22. & PIEDRA, Arturo. Evangelização protestante na América Latina. São Leopoldo: Equador: Sinodal : CLAI, 2006. v. 1. p. 115-152.
[20] HAGGLUND, Bengt. História da teologia. Trad. Mario L. Rehfeldt, Gladis Knak Rehfeldt. 7. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 332 – 336.
O Pentecostalismo surgiu à margem das igrejas denominacionais nos Estados Unidos e na América Latina – inclusive no Brasil[1] – como progrediu à margem das igrejas estatais, históricas e elitizadas na Europa (Escandinávia, Noruega e Suécia). Por isso surgem outras perguntas: Será o Pentecostalismo “um grito” somente religioso ou uma válvula de escape para uma religiosidade marginal? Ou será uma religiosidade que dá vazão a um grito maior, o grito dos excluídos do sistema cúltico – religioso (elitizado, denominacional e estatal) e social de uma época de transição, segregação e exclusão?
Assim, como no Pentecostes em Atos dos Apóstolos, o Pentecostalismo Moderno, numa leitura hermenêutica dos pioneiros[2], surge e se legitima na marginalidade (síndrome marginal), entre os pequenos e os que não são, para que, segundo os pioneiros, confunda os grandes e os que são. Isso se torna coerente com a leitura hermenêutica feita pelo próprio Pentecostalismo, pois suas raízes sociológicas são originárias em grupos de brancos pobres, de afrodescendentes e minorias étnicas imigrantes nos Estados Unidos. Constata-se assim que o Movimento Pentecostal que iniciou a partir do âmbito religioso, torna-se também um fenômeno sociológico[3]. Muitos sociólogos, historiadores, religiosos e teólogos têm elaborado pesquisas acerca desta dimensão sócio-religiosa do Pentecostalismo[4].
O Pentecostalismo Moderno ou Movimento de Fé Apostólica, oriundo da ruptura com os Movimentos de Santidade/ Holiness (meados do Séc. XIX), se projeta definitivamente[5] nas doutrinas difundidas por Charles F. Parham.
Parham foi diretor da Escola Bíblica Betel em Topeka, Kansas. Nesta Escola ele estimulou os/as seus/suas alunos/as a estudarem a Bíblia e encontrarem nela base para o seu ensinamento acerca da evidência inicial visível e/ ou externa do batismo com o Espírito Santo. Alguns de seus alunos alcançam a experiência pentecostal de “falar em outras línguas”[6] e rapidamente esta “novidade” se espalhou[7].
Existem muitas ocorrências anteriores ao movimento promovido por Parham, mas a difusão em escala global, ou internacional do Pentecostalismo, como salienta Paul Freston[8], se dá “definitivamente” a partir das doutrinas de Parham (no Kansas, 1900 e Houston,1905) e outros seguidores doutrinários como, por exemplo, William Seymour (em Los Angeles, 1906) e William Durham (em Chicago, 1907). Willian Seymour, que no ano de 1905 estava em Houston (Texas), ouviu a mensagem pentecostal pela primeira vez e, interessado por esse acontecimento, se matriculou na Escola Bíblica dirigida por Parham, recentemente instalada em Houston. Seymour, pregador holiness, mesmo sofrendo a segregação racial (filho de ex-escravo, cego de um olho e pobre estudava no lado de fora da sala de aulas – no corredor), estudou e aprendeu as doutrinas difundidas por Parham. A princípio, o pentecostalismo nos cultos promovidos em Houston, Texas, não conseguiu romper a questão da segregação racial. Paulo Barrera descreve Parham como “... um branco, racista e admirador da tenebrosa Ku-Klux-Klan” e Freston também descreve Parham sendo “... branco e racista, ligado à Ku-Klux-Klan”[9]. Galindo também menciona o menosprezo de Parham pelo negro Seymour[10].
Parham, em 1905, pregava a doutrina acerca do batismo com/ no Espírito Santo para auditórios de pessoas brancas enquanto que ele colocava Seymour para pregar para auditórios de pessoas negras. Contudo, a relação entre Parham e Seymour não durou um ano, pelo fato de Seymour iniciar a Missão de Fé Apostólica ao se mudar para Los Angeles em 1906. Após abril de 1906 Parham não teve um papel de realce no Movimento Pentecostal. Los Angeles é o novo e histórico espaço onde o Pentecostalismo repercute. Por um espaço de tempo a segregação racial, étnica e de gênero foi “abolida”. Apesar de perseguido e caluniado, Seymour consegue proclamar a mensagem pentecostal, expandindo e criando raízes dentro de grupos afrodescendentes e brancos pobres e minorias étnicas emigrantes-imigrantes. O próximo passo de Seymour após conseguir temporariamente (1906-1909) quebrar tabus (fenômeno inter-racial, miscigenação étnica e questão de gênero), é estabelecer uma liderança (masculina e feminina) que – como arautos e porta-vozes dessa nova expressão da fé cristã – espalhe a mensagem do Movimento por todo o mundo.
Os ciclos de emigrações/imigrações nacionais/estrangeiras certamente ajudaram na divulgação da mensagem pentecostal. Esta dinâmica sociológica proporcionou a expansão do Pentecostalismo Moderno.
William Joseph Seymour se tornou desde então o principal líder e ícone desse movimento, apesar da segregação racial. Considerando o período, ser um líder negro, cego, pobre e segregado, já nos traz um vestígio em qual ambiente nasce este movimento, ainda mais apoiado por lideranças femininas e marginalizadas. Mas a harmonia entre brancos e negros no Pentecostalismo não durou muito tempo. Já em 1914 houve novamente a cisão entre Igrejas Brancas e Igrejas Negras. Nem a “virtude do Espírito Santo”[11] conseguiu quebrar a ideologia de segregação racial sulista nos EUA no pós-guerra de Secessão. Por um momento – e nada além de um momento/ experiência – a segregação é esquecida e “superada” no culto pentecostal em Azuza Street, mas a liderança pentecostal até os dias atuais se omite e evita entrar nesta discussão étnico-social.
Para entendermos o que ocasionou a ruptura entre negros e brancos, precisamos analisar dois grupos que tiveram destaque dentro deste movimento incipiente. O primeiro grupos de destaque são as igrejas pentecostais que surgiram no meio afrodescendente[12] (As Igrejas da Confissão de Fé Apostólica e as Igrejas de Deus em Cristo) e as igrejas pentecostais independentes entre os brancos pobres e imigrantes (As Assembléias de Deus dos EUA) formam o segundo grupo. O pentecostalismo implantado no Brasil por Berg, Vingren (fundadores da Assembléia de Deus no Brasil) e Francescon (fundador da Congregação Cristã do Brasil) vem da ala branca do pentecostalismo norte-americano de viés reformado, contudo ainda não havia ocorrido a ruptura definitiva entre brancos e negros pentecostais norte-americanos. Essa ruptura só ocorreria definitivamente com a fundação das AD em 1914.
A Church of God in Christ (Igreja de Deus em Cristo) – fundada por Charles Mason – é a maior igreja pentecostal negra norte-americana de origem wesleyana e tem o dobro de membros das AD dos EUA de origem reformada. As AD dos EUA (coligação das igrejas pentecostais autônomas brancas dissidentes da Church of God in Christ fundada em 1914) assumiram a teologia da “Dupla Bênção” enquanto que as igrejas pentecostais de tradição wesleyana assumiram a teologia da “Tripa Bênção”.
Outras ramificações do Movimento Pentecostal surgiram dentro de muitas igrejas norte-americanas de confissão batistas, episcopais, luteranas, reformadas, congregacionalistas, metodistas[13] etc.
William Durham (morto em 1912), mentor do conceito da “Benção Dupla”, pastoreava a North Avenue Church (Igreja Batista da Avenida Norte), onde Gunnar Vingren “experimentou o seu pentecoste” em 1909. Neste mesmo lugar Luigi Francescon foi batizado com o Espírito Santo e na mesma cidade, Chicago, Vingren e Daniel Berg se conheceram[14].
Evidentemente que Durham não sabia quem eram estas três personagens tão importantes na construção da fé pentecostal no solo brasileiro. Vingren, Berg e Francescon certamente só participaram de uma ou outra reunião na Igreja da Avenida Norte, pastoreada por Durham.
O movimento da Rua Azuza conseguiu se apropriar de um ethos social fundante. Brancos pobres (geralmente brancos nativos, imigrantes europeus e hispânicos atrás do Sonho Americano) e negros (ex-escravos ou filhos de ex-escravos) são as bases do Movimento. É nitidamente uma religiosidade dos excluídos do sistema cúltico, social, econômico e político, numa época conturbada (transição, segregação, exclusão racial e étnica).
Apesar de compartilhar de matizes teológicas herdadas das Igrejas e movimentos pós-reforma e do protestantismo de missão, o Pentecostalismo, além de ter características peculiares, surge também numa época particular da história do mundo e do próprio cristianismo. As primeiras manifestações significativas do “Pentecostalismo Moderno” coincidem com:
(a) o período de imigração de estrangeiros para a Nova Terra, as Américas (meados do Século XIX início do Século XX);
(b) o período do Neo-Colonialismo Imperialista Europeu[15] que expandiram os reinos europeus sobre a Africa, a Ásia e América Latina[16];
(c) o período de efervescência teológica (liberais versus fundamentalistas etc)[17];
(d) o ciclo mundial de missões protestantes[18] e;
(e) Conferência Mundial de Missão de Edimburgo[19] (1910) em meados da primeira década do Séc. XX.
Então, podemos definir que o quadro histórico, em que está inserido a semente que será germinada a mensagem pentecostal moderna na periferia dos grupos étnico – religiosos, compreende desde o fim do “Segundo Grande Despertamento” (1790 – 1830)[20] até a Conferência de Edimburgo (1910)।
___________________________________BIBLIOGRAFIA
A fonte deste artigo esta na obra: MARTINS, Marcos José. A dimensão escatológica da hinologia clássica pentecostal. São Bernardo do Campo: [s.n.], 2008. 110 p. Bibliografia — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2008. pp. 18-23
[1] ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ. Vozes, 1995. p. 17-21.
[2] VINGREN, Ivar. Gunnar Vingren, o diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1973. 222 p. (p. 7, 63 e 92) & BERG, Daniel. Enviado por Deus: memórias de Daniel Berg. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 8ª. ed. 208 p. (p. 48, “as experiências da era apostólica são também para nossos dias”). Cf. tb. GALINDO, Florêncio. O fenômeno das seitas fundamentalistas. Tradução de José Maria de Almeida. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 201.
[3] Existem vários estudos que procuram enfatizar os aspectos sociais e formação de identidade religiosa pentecostal por isso indicamos as seguintes fontes bibliográficas essenciais (SOUZA, Beatriz Muniz de. A experiência da salvação: pentecostais em São Paulo. São Paulo. Editora Duas Cidades, 1969; D’ÉPINAY, Christian. Religião e espiritualidade e sociedade. Estudo sociológico do pentecostalismo latino-americano. In Cadernos do ISER 6, 1977; NOVAES, Regina Reyes. Os escolhidos de Deus: pentecostais, trabalhadores & cidadania. Rio de Janeiro, ISER – Marco Zero, 1985).
[4] Contudo, este trabalho não terá como tema central a questão sociológica, apesar de que dela se beba para direcioná-lo. Basearemos nossa pesquisa na área teológica a partir da perspectiva escatológica. Conferir esta dimensão sociológica em: CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: Organização e marketing de um empreendimento. Petrópolis, RJ: Vozes/Simpósio/UMESP, 1997. p.49 & ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 22.
[5] GROMACKI, Robert Glenn. Movimento moderno de línguas. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1972. 166 p. Gromacki trabalha o fenômeno desde 1100 a.E.C. até Azuza Street. Mas a ênfase dada pelo autor é o período pós-reforma da p. 31 - 40.
[6] OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil: por que mais de oito milhões de negros são pentecostais. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 28.
[7] GROMACKI, 1972. p. 37. Agnes Osman foi a primeira pessoa (mulher!) que buscou incessantemente pela glossolalia.
[8] FRESTON, Paul. Pentecostalismo . Belém, PA: UNIPOP, 1996. p. 3
[9] Id., ibid., p. 4
[10] GALINDO, Florêncio. O fenômeno das seitas fundamentalistas. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 92, 194. Cf. tb. Biografia de William Joseph Seymour. Site: www.yohanan.com.br. Disponível no endereço: www.yohanan.com.br/biografias/bio_willian.htm/biografias/bio_willian.htm. Acesso em 20/02/08.
[11] Atos 2, numa hermenêutica simples do texto bíblico, relata que o fenômeno da glossolalia e da xenolalia (línguas dos povos) conseguiu surpreender os peregrinos porque, de certa forma, unificou todas as línguas conhecidas no mesmo lugar, sem haver uma forma discriminatória ou segregacionalista, aliás ‘nós os podemos ouvir falar na nossa língua’. Ao contrário de Babel, Lucas, em Atos, compreende o fenômeno pentecostal (pós-pascal) como a unidade dos povos e nações do mundo de então pelo fenômeno das “línguas”.
[12] ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis, RJ. Vozes, 1995. p. 23. OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 29 & ALENCAR, Gedeon Freire de. Todo poder aos pastores, todo trabalho ao povo, e todo louvor a Deus, 2000 – Tese de Mestrado UMESP p. 58 – 62, definem que a Missão de Fé Apostólica é a expressão da fé pentecostal entre os negros e o nome Assembléias de Deus entre os brancos.
[13] GROMACKI, 1972. O autor descreve a interferência (ou inferência?) pentecostal dentro da eclesiologia do protestantismo histórico nos EUA.
[14] Não desejamos fazer aqui um relato sobre o processo de vinda visionária desses dois missionários ao Brasil, visto que muito se tem escrito sobre isso. Acerca da vinda histórica dos pioneiros Gunnar Vingren e Daniel Berg existem muitos marcos teóricos e referências biográficas e bibliográficas. Cito aqui a obra biográfica sobre Vingren em VINGREN, Ivar. Gunnar Vingren, o diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1973. p. 22 e a obra autobiográfica de BERG, Daniel. Enviado por Deus: memórias de Daniel Berg. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 8ª. ed. p. 31. Conferir também a obra de CONDE, Emilio. História das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro, 1960. 355 p.
[15] MORAES, José Geraldo Vinci de. História Geral e do Brasil: São Paulo, Atual Editora, 2003. 1ª. Edição. 496 p (cf. Neo-imperialismo Europeu p. 273 e imigração de europeus para os EUA p. 252); PEDRO, Antônio. História Geral. São Paulo, FTD, 1997. 392 p. (Cf. Neo-imperialismo Europeu, p. 258 -260);
[16] MOLTMANN, Jürgen. A vinda de Deus: escatologia cristã. Tradução de Nélio Schneider. São Leopoldo: UNISINOS, 2003. p. 19. “As potências européias erigiram os seus reinos mundiais na África, Ásia e América Latina e difundiram a civilização européia com fervor missionário messiânico”.
[17] OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2001. 668 p. (Discussão sobre as Teologias Liberal e Fundamentalista, p. 548-605) & HORDERN, William. Teologia contemporânea. Tradução de Roque Monteiro de Andrade. São Paulo: Hagnos, 2003. 319 p. (Desenvolve o contexto dessa tensão teológica nas pp. 74-79).
[18] EKSTROM, Bertil. História da missão: um guia de estudo da história missionária. Londrina, PR: Descoberta, 2001. 136 p. (pp. 68-103).
[19] SABANES PLOU, Dafne. Caminhos de unidade: itinerário do diálogo ecumênico na América Latina (1916-2001). São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. p. 20-22. & PIEDRA, Arturo. Evangelização protestante na América Latina. São Leopoldo: Equador: Sinodal : CLAI, 2006. v. 1. p. 115-152.
[20] HAGGLUND, Bengt. História da teologia. Trad. Mario L. Rehfeldt, Gladis Knak Rehfeldt. 7. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 332 – 336.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Frida Vingren: uma liderança feminina pioneira
Frida Vingren: uma liderança feminina pioneira
Além Gunnar Vingren e de Daniel Berg, muitos outros personagens construíram as bases das Assembléias de Deus no Brasil. Adriano Nobre, José Rodrigues, José Calazans, Nils Nelsons, Nils Kastberg, Samuel Nystrom entre outros foram grandes ícones deste período de implantação das Assembléias de Deus. Mas não podemos nos esquecer de Frida Strandberg[1]. A liderança desta mulher nos chama muita atenção, pois sua atuação foi de suma importância para a consolidação da Assembléia de Deus no Brasil. Frida nasceu em junho de 1891, no norte da Suécia, era de uma família de crentes luteranos (a Igreja Estatal Oficial na Suécia). Formou-se em Enfermagem chegando a ser chefe da enfermaria do hospital onde trabalhava. Tornou-se membro da Igreja Filadélfia de Estocolmo, onde foi batizada nas águas pelo pastor Lewi Pethrus, em 24 de janeiro de 1917.
Neste mesmo ano recebeu o batismo com o Espírito Santo e o dom de profecia e se sentiu vocacionada para a obra missionária sendo enviada pelo pastor Pethrus para o campo missionário brasileiro e, chegando a Belém/ Pará, se casou Gunnar Vingren em 16 de outubro de 1917. Contraiu malária em março de 1920 e quase morreu. Recuperada viu seu marido pegar a mesma enfermidade várias vezes. Depois de muitos anos no Pará, a família Vingren migra para o Rio de Janeiro, seguindo o mesmo processo da migração nordestina.
Frida Vingren (nome de casada) desenvolveu grandes atividades evangelísticas, abriu frentes de trabalho em muitos lugares do Rio de Janeiro. As atividades de assistência social, círculos de oração e grupos de visitas ficaram sob sua responsabilidade. Também exercia a função de docência nas classes de Escola Dominical e ministrava Estudos Bíblicos. Era responsável – no inicio da obra no Rio de Janeiro – pela leitura devocional nas aberturas dos cultos, pela execução musical dos hinos – ela era organista e tocava violão – e, quando Gunnar Vingren se ausentava da Igreja em visita ao campo missionário, Frida substituía-o pregando e dirigindo os cultos e trabalhos oficiais.
Frida exerceu a direção oficial dos cultos realizados aos domingos na Casa de Detenção no Rio de Janeiro e era excelente pregadora, exercendo sob seus ouvintes grande carisma. Pregava e dirigia os cultos nos pontos de pregação da AD no Rio de Janeiro, em praças públicas e áreas abertas. Os cultos ao ar-livre promovidos no Largo da Lapa, na Praça da Bandeira, na Praça Onze e na Estação Central eram dirigidos por Frida, tendo Paulo Leivas Macalão como seu auxiliar direto[2].
Articulou-se como escritora de diversas matérias nos jornais oficiais[3] da AD, como os jornais Boa Semente, O Som Alegre e Mensageiro da Paz (este último agregou os dois primeiros). Ela escrevia mensagens evangelísticas e traduzia vários outros textos e hinos da língua escandinava. Foi também comentarista das Lições Bíblicas de Escola Dominical (hoje revista oficial da CGADB para a Escola Dominical) na década de 1930.
Além de excelente escritora, Frida sempre se dedicou à música. Cantava, tocava órgão, violão e compunha hinos de grande valor espiritual. Vinte e três hinos da Harpa Cristã são de sua autoria e alguns destes têm forte essência escatológica. Frida, ao que parece, não foi simplesmente uma colaboradora no processo de implantação da AD. Ela foi, juntamente com seu marido, a principal líder da Igreja entre 1920 e 1932. Alencar alega que
[Daniel] Berg é nulo [...] Como Berg é inexpressivo na liderança e Vingren, doente, ficou pouco tempo efetivamente na liderança, fica a dúvida sobre quem de fato dirigia e dava “as cartas” nesta igreja em seus primeiros anos: Frida Vingren?[4]
O modelo de liderança de Frida Vingren, segundo relata Alencar, incomodou muito a liderança masculina da AD. Frida é o modelo de uma líder completa, numa época em que
As mulheres ainda não participavam da vida política do país nem mesmo como eleitoras, mas a AD permite que elas, excepcionalmente, sejam pastoras e ensinadoras. [O que incomoda então é a] influência de Frida Vingren? Com certeza. Ela prega, canta, toca, escreve poesia, textos escatológicos, visita hospitais, presídios, realiza cultos e – nada comum - dirige a igreja na ausência do marido (e... na presença também) [...] na foto dos missionários... que participaram da Convenção de Natal [Rio Grande do Norte, 1930] ela é a única mulher que aparece. Onde estão as esposas dos outros [missionários e pastores]?... Frida chega a escrever um texto no Mensageiro da Paz... disciplinando a conduta dos obreiros.[5]
Frida é vista como uma mulher extraordinária. Ivar Vingren argumenta que
a esposa do irmão Vingren, foi também uma missionária fiel, perseverante e zelosa, que além do cuidado pela família, soube participar e ajudar no trabalho do seu esposo. Grande é a multidão de almas que ela ganhou para Jesus durante estes anos de luta junto com o seu esposo.[6]
Frida, numa das cartas selecionadas na obra autobiográfica dos Vingren, expressa o seu esgotamento físico e seus sentimentos acerca de seu trabalho pioneiro no Brasil[7]. Ela enumera as dificuldades na categoria “tribulação”, sofrimento” e “agonia”. Mas tem muita esperança, quando contempla os sinais de Deus operando na Igreja e nas congregações. Ela declara que tem pagado o preço do trabalho, mas sabe que nada é em vão perante o Senhor.
A missionária - dirigente dos trabalhos oficiais na AD do Rio de Janeiro (até então Missão Sueca) nesta mesma carta demonstra um sinal de frustração por ter de entregar a direção do Jornal “Mensageiro da Paz” aos líderes nacionais
O Senhor sabe de tudo, eu não quero defender-me, pois não sou sem falta, mas aquele dia tudo se revelará [...] Agora, depois que entregamos a direção do jornal “Mensageiro da Paz”, eu pensei então que o nosso tempo aqui no Brasil talvez esteja terminado ou o Senhor talvez tenha alguma outra missão para nós cumprirmos [...] Para mim é como arrancar o coração do meu peito, quando penso em deixar o Brasil para talvez nunca mais voltar![8]
É difícil aceitar que Frida seja “sem falta”. Ela faz tudo e assume toda a responsabilidade da Igreja em São Cristóvão/ RJ além de cuidar das congregações ligadas a esta Igreja, dirigir o jornal e articular outros trabalhos acima citados. Ela tem um esgotamento físico que chega a atingir o sistema nervoso e alega sofrer do coração. Sinais claros de cansaço de uma pessoa que se dedica integralmente à obra da Igreja.
É complicado vê-la somente como colaboradora ou à sombra de Vingren. Frida desabafa quando diz que “Gunnar tem estado enfermo a tanto tempo, que faz muito [tempo] que ele nem tem podido participar do trabalho”.[9] Por causa da enfermidade de Gunnar Vingren, este não teve o tempo e a energia suficiente para poder assumir o trabalho. Quem assume o trabalho integralmente é Frida, apesar de Samuel Nystrom – teórica e documentalmente – ser o segundo dirigente da Igreja na ausência de Gunnar Vingren.
É fato que Frida é uma mulher humilde que compreende seu papel de liderança e, sem soberba, relata como Deus, em uma revelação dada a uma irmã, a via quando ela auxiliava seu marido.
Quando nós [Gunnar e Frida] saímos do Pará e viemos ao Rio de Janeiro, uma irmã no Pará teve uma visão. Ela viu como Gunnar estava ajuntando frutas maduras num grande pomar e ela me viu também num canto do pomar, trabalhando com uma bomba de água, que estava regando todas as árvores[10]
Esta visão está muito próxima à lógica do ministério apostólico compreendido por Paulo. “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Co. 3.6). Gunnar seria Paulo? Frida, Apolo? A compreensão hermenêutica pentecostal pode nos abrir para essa possibilidade interpretativa. Mas, Frida nunca esteve “num canto do pomar”.
O fato é que Frida Vingren, com o agravamento da enfermidade de seu marido, foi preterida pela liderança nacional. Em 1932, por causa do estado de saúde de Gunnar, toda a família Vingren é obrigada a voltar à Suécia para cuidar da saúde de Gunnar. Neste mesmo ano, antes de viajar para a Suécia, o casal Vingren sofre com a morte de sua filha caçula. Frida perde o que lhe é mais precioso no período de dois anos (1932-1933). Perde sua filhinha, é forçada pelas circunstâncias explícitas (doença do marido) e implícitas (a oposição da liderança nacionalista e masculina) a deixar o trabalho eclesiástico por ela exercido e suportar a perda – por falecimento – de seu marido. Sete anos depois do falecimento de Gunnar, Frida também entra pelas portas das mansões celestiais e as obras de suas mãos a acompanharam e naquele dia tudo se revelará. “Então ouvi uma voz dos céus dizendo escreva: Felizes os mortos que morreram no Senhor... Diz o Espírito: Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão”. (Ap. 14.13).
Frida Vingren é o típico modelo de mulher pentecostal que exerceu o seu ministério pastoral na periferia do poder clerical. Dentro das AD se constituíram as sociedades eclesiais femininas como grupos de visitação, de oração, de louvor, assistência social; Frida é a origem. As mulheres exercem espaço na liturgia, na pregação, no culto, na educação bíblica, na assistência social e no serviço religioso, mas dificilmente o ministério pastoral.
Frida (representando aqui o ministério feminino) é um protótipo de liderança silenciada e, infelizmente, marginalizada nas AD. Rosemary Ruether diz que
O ministério feminino baseado em dons carismáticos renasce continuamente na prática e também é continuamente marginalizado do poder nas instituições históricas das igrejas.[11]
As mulheres pentecostais têm um papel fundamental na organização e manutenção das estruturas laicas das igrejas pentecostais, como podermos ver na biografia de Frida Vingren. Contudo, elas são marginalizadas, inferiorizadas e preteridas dentro das estruturas significantes de poder. Estão à margem e dificilmente, dentro do modelo patriarcalista das igrejas pentecostais clássicas, chegarão ao centro do poder.
A liderança nacional desde a 1ª. Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil (caso Frida Vingren, por exemplo) tem feito de tudo para tirar de foco a discussão sobre o ministério feminino na Igreja. O Ministério de Madureira tem consagrado mulheres para o exercício do diaconato e para o ministério missionário.
As mulheres dos pastores presidentes – anteriormente consideradas “a esposa do pastor...” – agora têm sido reconhecidas como missionárias. O Ministério do Belém – ligado a CGADB, nem ao diaconato tem consagrado mulheres. As mulheres não são consultadas acerca das grandes decisões e iniciativas institucionais.
________________________
Fonte: MARTINS, Marcos José. A dimensão escatológica da hinologia clássica pentecostal. São Bernardo do Campo: [s.n.], 2008. 110 p. Bibliografia — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2008. (páginas 30 a 35 – Trabalho de Conclusão de Curso Bacharelado de Teologia)
[1] MELO, Vieira de. Frida Vingren. Site: vieirademelo.googlepages.com. Disponível em: http://vieirademelo.googlepages.com/fridavingren. Acesso em 01/11/2008. Conferir também: Jornal "Mensageiro da Paz", n°1.453, junho 2006, CPAD.
[2] VINGREN, 1973. p. 122 a 124.
[3] ALENCAR, 2000. 161p. Conferir um estudo sobre os temas das matérias escritas por Frida Vingren nas páginas 72, 106 e o espaço concedido a escritos de mulheres na página 108.
[4] Id., ibid., p. 55 e 56. O autor trabalha o estilo de liderança Gunnar Vingren – Frida Vingren.
[5] Id., ibid., p. 56
[6] VINGREN, 1973. p. 198
[7] Id., ibid., p. 198 e 199.
[8] Id., ibid., p. 198 e 199. Este jornal, enquanto não passou para a direção dos líderes nacionais, só trouxe aflição para o casal Vingren. Gunnar e Frida trabalharam incessantemente para que o jornal fosse aceito nacionalmente e, quando conseguiram este feito juntamente com Samuel Nystrom, os líderes nacionais só sossegaram quando assumiram a direção do jornal. Conferir mais informações sobre essas tensões nas páginas 178-179 e 189.
[9] Id., ibid., p. 199.
[10] Id., ibid., p. 198.
[11] RUETHER, Rosemary Radford. Sexismo e religião: rumo a uma teologia feminista. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 164
Além Gunnar Vingren e de Daniel Berg, muitos outros personagens construíram as bases das Assembléias de Deus no Brasil. Adriano Nobre, José Rodrigues, José Calazans, Nils Nelsons, Nils Kastberg, Samuel Nystrom entre outros foram grandes ícones deste período de implantação das Assembléias de Deus. Mas não podemos nos esquecer de Frida Strandberg[1]. A liderança desta mulher nos chama muita atenção, pois sua atuação foi de suma importância para a consolidação da Assembléia de Deus no Brasil. Frida nasceu em junho de 1891, no norte da Suécia, era de uma família de crentes luteranos (a Igreja Estatal Oficial na Suécia). Formou-se em Enfermagem chegando a ser chefe da enfermaria do hospital onde trabalhava. Tornou-se membro da Igreja Filadélfia de Estocolmo, onde foi batizada nas águas pelo pastor Lewi Pethrus, em 24 de janeiro de 1917.
Neste mesmo ano recebeu o batismo com o Espírito Santo e o dom de profecia e se sentiu vocacionada para a obra missionária sendo enviada pelo pastor Pethrus para o campo missionário brasileiro e, chegando a Belém/ Pará, se casou Gunnar Vingren em 16 de outubro de 1917. Contraiu malária em março de 1920 e quase morreu. Recuperada viu seu marido pegar a mesma enfermidade várias vezes. Depois de muitos anos no Pará, a família Vingren migra para o Rio de Janeiro, seguindo o mesmo processo da migração nordestina.
Frida Vingren (nome de casada) desenvolveu grandes atividades evangelísticas, abriu frentes de trabalho em muitos lugares do Rio de Janeiro. As atividades de assistência social, círculos de oração e grupos de visitas ficaram sob sua responsabilidade. Também exercia a função de docência nas classes de Escola Dominical e ministrava Estudos Bíblicos. Era responsável – no inicio da obra no Rio de Janeiro – pela leitura devocional nas aberturas dos cultos, pela execução musical dos hinos – ela era organista e tocava violão – e, quando Gunnar Vingren se ausentava da Igreja em visita ao campo missionário, Frida substituía-o pregando e dirigindo os cultos e trabalhos oficiais.
Frida exerceu a direção oficial dos cultos realizados aos domingos na Casa de Detenção no Rio de Janeiro e era excelente pregadora, exercendo sob seus ouvintes grande carisma. Pregava e dirigia os cultos nos pontos de pregação da AD no Rio de Janeiro, em praças públicas e áreas abertas. Os cultos ao ar-livre promovidos no Largo da Lapa, na Praça da Bandeira, na Praça Onze e na Estação Central eram dirigidos por Frida, tendo Paulo Leivas Macalão como seu auxiliar direto[2].
Articulou-se como escritora de diversas matérias nos jornais oficiais[3] da AD, como os jornais Boa Semente, O Som Alegre e Mensageiro da Paz (este último agregou os dois primeiros). Ela escrevia mensagens evangelísticas e traduzia vários outros textos e hinos da língua escandinava. Foi também comentarista das Lições Bíblicas de Escola Dominical (hoje revista oficial da CGADB para a Escola Dominical) na década de 1930.
Além de excelente escritora, Frida sempre se dedicou à música. Cantava, tocava órgão, violão e compunha hinos de grande valor espiritual. Vinte e três hinos da Harpa Cristã são de sua autoria e alguns destes têm forte essência escatológica. Frida, ao que parece, não foi simplesmente uma colaboradora no processo de implantação da AD. Ela foi, juntamente com seu marido, a principal líder da Igreja entre 1920 e 1932. Alencar alega que
[Daniel] Berg é nulo [...] Como Berg é inexpressivo na liderança e Vingren, doente, ficou pouco tempo efetivamente na liderança, fica a dúvida sobre quem de fato dirigia e dava “as cartas” nesta igreja em seus primeiros anos: Frida Vingren?[4]
O modelo de liderança de Frida Vingren, segundo relata Alencar, incomodou muito a liderança masculina da AD. Frida é o modelo de uma líder completa, numa época em que
As mulheres ainda não participavam da vida política do país nem mesmo como eleitoras, mas a AD permite que elas, excepcionalmente, sejam pastoras e ensinadoras. [O que incomoda então é a] influência de Frida Vingren? Com certeza. Ela prega, canta, toca, escreve poesia, textos escatológicos, visita hospitais, presídios, realiza cultos e – nada comum - dirige a igreja na ausência do marido (e... na presença também) [...] na foto dos missionários... que participaram da Convenção de Natal [Rio Grande do Norte, 1930] ela é a única mulher que aparece. Onde estão as esposas dos outros [missionários e pastores]?... Frida chega a escrever um texto no Mensageiro da Paz... disciplinando a conduta dos obreiros.[5]
Frida é vista como uma mulher extraordinária. Ivar Vingren argumenta que
a esposa do irmão Vingren, foi também uma missionária fiel, perseverante e zelosa, que além do cuidado pela família, soube participar e ajudar no trabalho do seu esposo. Grande é a multidão de almas que ela ganhou para Jesus durante estes anos de luta junto com o seu esposo.[6]
Frida, numa das cartas selecionadas na obra autobiográfica dos Vingren, expressa o seu esgotamento físico e seus sentimentos acerca de seu trabalho pioneiro no Brasil[7]. Ela enumera as dificuldades na categoria “tribulação”, sofrimento” e “agonia”. Mas tem muita esperança, quando contempla os sinais de Deus operando na Igreja e nas congregações. Ela declara que tem pagado o preço do trabalho, mas sabe que nada é em vão perante o Senhor.
A missionária - dirigente dos trabalhos oficiais na AD do Rio de Janeiro (até então Missão Sueca) nesta mesma carta demonstra um sinal de frustração por ter de entregar a direção do Jornal “Mensageiro da Paz” aos líderes nacionais
O Senhor sabe de tudo, eu não quero defender-me, pois não sou sem falta, mas aquele dia tudo se revelará [...] Agora, depois que entregamos a direção do jornal “Mensageiro da Paz”, eu pensei então que o nosso tempo aqui no Brasil talvez esteja terminado ou o Senhor talvez tenha alguma outra missão para nós cumprirmos [...] Para mim é como arrancar o coração do meu peito, quando penso em deixar o Brasil para talvez nunca mais voltar![8]
É difícil aceitar que Frida seja “sem falta”. Ela faz tudo e assume toda a responsabilidade da Igreja em São Cristóvão/ RJ além de cuidar das congregações ligadas a esta Igreja, dirigir o jornal e articular outros trabalhos acima citados. Ela tem um esgotamento físico que chega a atingir o sistema nervoso e alega sofrer do coração. Sinais claros de cansaço de uma pessoa que se dedica integralmente à obra da Igreja.
É complicado vê-la somente como colaboradora ou à sombra de Vingren. Frida desabafa quando diz que “Gunnar tem estado enfermo a tanto tempo, que faz muito [tempo] que ele nem tem podido participar do trabalho”.[9] Por causa da enfermidade de Gunnar Vingren, este não teve o tempo e a energia suficiente para poder assumir o trabalho. Quem assume o trabalho integralmente é Frida, apesar de Samuel Nystrom – teórica e documentalmente – ser o segundo dirigente da Igreja na ausência de Gunnar Vingren.
É fato que Frida é uma mulher humilde que compreende seu papel de liderança e, sem soberba, relata como Deus, em uma revelação dada a uma irmã, a via quando ela auxiliava seu marido.
Quando nós [Gunnar e Frida] saímos do Pará e viemos ao Rio de Janeiro, uma irmã no Pará teve uma visão. Ela viu como Gunnar estava ajuntando frutas maduras num grande pomar e ela me viu também num canto do pomar, trabalhando com uma bomba de água, que estava regando todas as árvores[10]
Esta visão está muito próxima à lógica do ministério apostólico compreendido por Paulo. “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Co. 3.6). Gunnar seria Paulo? Frida, Apolo? A compreensão hermenêutica pentecostal pode nos abrir para essa possibilidade interpretativa. Mas, Frida nunca esteve “num canto do pomar”.
O fato é que Frida Vingren, com o agravamento da enfermidade de seu marido, foi preterida pela liderança nacional. Em 1932, por causa do estado de saúde de Gunnar, toda a família Vingren é obrigada a voltar à Suécia para cuidar da saúde de Gunnar. Neste mesmo ano, antes de viajar para a Suécia, o casal Vingren sofre com a morte de sua filha caçula. Frida perde o que lhe é mais precioso no período de dois anos (1932-1933). Perde sua filhinha, é forçada pelas circunstâncias explícitas (doença do marido) e implícitas (a oposição da liderança nacionalista e masculina) a deixar o trabalho eclesiástico por ela exercido e suportar a perda – por falecimento – de seu marido. Sete anos depois do falecimento de Gunnar, Frida também entra pelas portas das mansões celestiais e as obras de suas mãos a acompanharam e naquele dia tudo se revelará. “Então ouvi uma voz dos céus dizendo escreva: Felizes os mortos que morreram no Senhor... Diz o Espírito: Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão”. (Ap. 14.13).
Frida Vingren é o típico modelo de mulher pentecostal que exerceu o seu ministério pastoral na periferia do poder clerical. Dentro das AD se constituíram as sociedades eclesiais femininas como grupos de visitação, de oração, de louvor, assistência social; Frida é a origem. As mulheres exercem espaço na liturgia, na pregação, no culto, na educação bíblica, na assistência social e no serviço religioso, mas dificilmente o ministério pastoral.
Frida (representando aqui o ministério feminino) é um protótipo de liderança silenciada e, infelizmente, marginalizada nas AD. Rosemary Ruether diz que
O ministério feminino baseado em dons carismáticos renasce continuamente na prática e também é continuamente marginalizado do poder nas instituições históricas das igrejas.[11]
As mulheres pentecostais têm um papel fundamental na organização e manutenção das estruturas laicas das igrejas pentecostais, como podermos ver na biografia de Frida Vingren. Contudo, elas são marginalizadas, inferiorizadas e preteridas dentro das estruturas significantes de poder. Estão à margem e dificilmente, dentro do modelo patriarcalista das igrejas pentecostais clássicas, chegarão ao centro do poder.
A liderança nacional desde a 1ª. Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil (caso Frida Vingren, por exemplo) tem feito de tudo para tirar de foco a discussão sobre o ministério feminino na Igreja. O Ministério de Madureira tem consagrado mulheres para o exercício do diaconato e para o ministério missionário.
As mulheres dos pastores presidentes – anteriormente consideradas “a esposa do pastor...” – agora têm sido reconhecidas como missionárias. O Ministério do Belém – ligado a CGADB, nem ao diaconato tem consagrado mulheres. As mulheres não são consultadas acerca das grandes decisões e iniciativas institucionais.
________________________
Fonte: MARTINS, Marcos José. A dimensão escatológica da hinologia clássica pentecostal. São Bernardo do Campo: [s.n.], 2008. 110 p. Bibliografia — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2008. (páginas 30 a 35 – Trabalho de Conclusão de Curso Bacharelado de Teologia)
[1] MELO, Vieira de. Frida Vingren. Site: vieirademelo.googlepages.com. Disponível em: http://vieirademelo.googlepages.com/fridavingren. Acesso em 01/11/2008. Conferir também: Jornal "Mensageiro da Paz", n°1.453, junho 2006, CPAD.
[2] VINGREN, 1973. p. 122 a 124.
[3] ALENCAR, 2000. 161p. Conferir um estudo sobre os temas das matérias escritas por Frida Vingren nas páginas 72, 106 e o espaço concedido a escritos de mulheres na página 108.
[4] Id., ibid., p. 55 e 56. O autor trabalha o estilo de liderança Gunnar Vingren – Frida Vingren.
[5] Id., ibid., p. 56
[6] VINGREN, 1973. p. 198
[7] Id., ibid., p. 198 e 199.
[8] Id., ibid., p. 198 e 199. Este jornal, enquanto não passou para a direção dos líderes nacionais, só trouxe aflição para o casal Vingren. Gunnar e Frida trabalharam incessantemente para que o jornal fosse aceito nacionalmente e, quando conseguiram este feito juntamente com Samuel Nystrom, os líderes nacionais só sossegaram quando assumiram a direção do jornal. Conferir mais informações sobre essas tensões nas páginas 178-179 e 189.
[9] Id., ibid., p. 199.
[10] Id., ibid., p. 198.
[11] RUETHER, Rosemary Radford. Sexismo e religião: rumo a uma teologia feminista. São Leopoldo: Sinodal, 1993. p. 164
BIBLIOGRAFIA
ALENCAR, Gedeon Freire de। Todo poder aos pastores, todo trabalho ao povo, e todo louvor a Deus: Assembléia de Deus: origem, implantação e militância 1911-1946. 2000. 161 p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Curso de Pós-graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo/SP, 2000.
RUETHER, Rosemary Radford। Sexismo e religiao: rumo a uma teologia feminista. São Leopoldo: Sinodal, 1993. 239 p.
VINGREN, Ivar. Gunnar Vingren, o diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1973. 222 p.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
A Identidade Pentecostal no Testemunho e na Liturgia
Teologia do Testemunho:
A Construção da Identidade Periférica Pentecostal a partir do Testemunho e do Culto
A Construção da Identidade Periférica Pentecostal a partir do Testemunho e do Culto
Não se busca fazer ou construir uma teologia pentecostal somente pela intelectualidade e pela razão – esses dois passos são essenciais, mas não existenciais. A teologia pentecostal brasileira (ou uma tentativa de ter uma teologia pentecostal) é construída e constituída – apesar da matiz fundamentalista norte-americana – a partir do testemunho pessoal. O testemunho é coerente não por sua dialética racional e sistemática (e pasmem – nem fundamentalista bíblica, a priori), mas a partir de outra dimensão da inteligência humana – a inteligência emocional. Alguns poderiam questionar o “emocionalismo” pentecostal, mas a emoção faz parte da construção de uma espiritualidade não-sistematizada teologicamente, mas emocionalmente construída para ser existencial.
O cerne da teologia pentecostal brasileira está nas entrelinhas do testemunho e da palavra pregada, cantada e vivenciada no cotidiano dos fiéis. Nessa busca de estabelecer uma marca existencial – não para quem está fora observado – mas para si mesmo, o fiel constrói a sua identidade religiosa, através de sua experiência com o divino. Apesar das situações conflituosas, o testemunho e o canto estabelecem a relação do fiel com Deus. Sua prática litúrgica não está relacionada com sistemas eclesiásticos pré-estabelecidos, mas com práticas que amenizem seus sofrimentos e, em movimento de expansão, determinam o devocional diário e o culto público do fiel pentecostal.
Claro que esta prática litúrgica não somente forma uma identidade religiosa, mas também fornece – mesmo que temporariamente – uma identidade social. A anomia social (falta de uma identidade social especifica) vivenciada pelo pentecostal no macrocosmo (mundo secular – dizem os pentecostais) é amortizada quando o seu testemunho é ouvido por Deus e por todos no ambiente fraterno do culto (microcosmo). Testemunhar é ter a oportunidade de ser ouvido. A atenção de todos ao testemunho é primordial para legitimar o fiel como pessoa dentro da comunidade. Na sociedade, no trabalho, na família etc muitos o ignora, mas na liturgia espontânea ele é ouvido, compreendido e reconhecido. Sua anomia social desaparece, sua voz é ouvida e sua teologia (forma de compreender Deus) é legitimada (não quero entrar no mérito se a teologia é boa ou ruim).
Testemunhar é essencial para todas as expressões cristãs, mas para o pentecostal, testemunhar é mais que essencial – é existencial! Os sistemas litúrgicos são coerentes para as igrejas históricas, mas o fiel pentecostal não perderá o seu sono se não for liturgicamente correto. O pentecostalismo rompe, a princípio, com as práticas cúlticas de outras denominações protestantes históricas e instituem um novo e inusitado “jeito” e projeto de ser igreja. A liturgia do fiel pentecostal é cercada pelo forte apelo testemunhal e pelos carismas pessoais dos leigos – incluindo o próprio líder eclesiástico.
É fato que essa liberdade litúrgica dos pentecostais sempre será alvo de crítica. Mas, podemos nos colocar nesta discussão de modo panorâmico e questionar: Quem pode ou não estabelecer o padrão do culto cristão? Por que se advoga que o padrão europeu ou norte-americano de liturgia é superior a qualquer outra forma de expressão cúltica? Por que as expressões cúlticas cristãs indígenas, latinas, asiáticas ou africanas só podem ser vista como inferior ao padrão europeu-americano de culto? Por que a forma de orar, cantar, testemunhar e pregar fora do padrão europeu-americano se torna inapropriada para o culto cristão se for feito por pentecostais?
É interessante notar que nem os pentecostais são coerentes com as criticas que fazem acerca da forma européia ou norte-americana das igrejas protestantes históricas realizarem a sua liturgia e nem as igrejas protestantes históricos estão dispostas a compreender o carisma do culto pentecostal baseado no testemunho da fé singela dos/as fiéis. São formas distintas de culto, mas são cultos legitimamente cristãos. A liturgia do fiel pentecostal não é validada pelo que já foi, mas pela possibilidade daquilo que pode vim a ser. E, como toda a eclesiologia tem limites e potenciais, não se pode negar que o culto pentecostal seja uma expressão do culto cristão. Kyrie Eleison! (Senhor, piedade)
Autor: Marcos José Martins – Evangelista da AD Taboão/ SBC, teólogo.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Ser Mulher na Diversidade Étnica
A mulher tem ampliado o ‘seu papel’ fora do ‘lar-doce-lar’ e conquistado o mercado de trabalho. Além de dona de casa, mãe e esposa, a mulher assumiu outras possibilidades profissionais. Professoras, médicas, magistradas etc são especialidades no contexto da mulher. Esses espaços foram conquistados com lutas! Queremos igualdade de direitos! Mas, essa realidade, em quase sua totalidade, não corresponde e não abrange todas as mulheres. As profissões acima citadas fazem parte de um Mercado de trabalho com características distintas. Mas, qual classe de mulheres ocupa tarefas como faxineiras, empregadas domésticas [em turno duplicado], cozinheiras, ajudantes e/ ou auxiliares de produção, catadoras de lixo etc? Qual é a situação econômica desta classe de mulheres? Se o homem branco tem renda, em geral, maior que a mulher branca e esta ganha um pouco mais ou igual ao homem negro, essa vantagem de renda não é aplicada à mulher negra e/ou parda. É sabido que a mulher negra-parda está no fim da escalada social.
Na África, nas Américas e na Europa, as mulheres negras (no Brasil negra-parda) sofrem todo o tipo de abuso (moral, intelectual, sexual, social, no mercado de trabalho etc) e é preterida perante outras matizes formativas do gênero feminino mundial. Não queremos, no entanto, dizer que somente a mulher negra-parda vive essa situação de dupla discriminação, mas quero enfatizar que o turbilhão ocidental, que veio estereotipar, rotulou essa matiz feminina como sendo inferior e não imitável para Ser Mulher. Claro que há focos tímidos de mulheres negras-pardas com um relativo sucesso nos EUA, na Europa e no Brasil, contudo, elas devem se adaptar ao sistema que estereotipa o padrão de comportamento de ser mulher, i.e., mulheres negras devem parecer e agir como mulheres brancas. Devem superar a marca distintiva de sua cor e etnia.
A mídia neste contexto assume o papel de estigmatizar o diferente e o heterogêneo. Nas novelas, comerciais etc dão-se o exemplo de pessoas que devem ser imitadas em detrimento àquelas que não estão em evidência ou são simplesmente ignoradas. Um silêncio sociocultural inquietante e ensurdecedor não? A mídia modela a sociedade e a mulher negra-parda se torna uma caricatura folclórica no papel de empregadas ou passistas do carnaval. Elas [‘as mulheres de cor’] são tidas pela cultura social ligadas ao subemprego, à ignorância e à pobreza econômica e estética... Essa ideologia se expande para outras categorias sociais e a mulher (não só a negra) se encontra numa relação mulher-cônjuge, mulher-empregada, mulher-objeto sexual, como, em geral, a mulher-explorada pelo meio e o fim social.
Quando percebemos esta situação, pela ótica do Reino de Deus, é impossível não termos uma voz profética. A Igreja de Cristo não deve ‘tomar a formar’ (Rm. 12.1 ss) deste padrão social. Os modelos europeu/ norte-americano são também modelo de Ser Mulher, mas não superiores aos outros (Africano, Indígena, Latino ou Asiático). A nossa missão e prática ética não admite sermos coniventes com um sistema que retira a identidade de uma pessoa entre outras. Sua Igualdade em diversidade necessita ser preservada dentro da raça humana. Nossa voz missionária e a nossa voz profética necessitam está em sintonia com a realidade social, não somente da mulher negra-parda, mas com a nossa gente brasileira, multi-étnica e plural. Que Cristo nos faça Um na Diversidade Étnica Humana!
Autor: Marcos José Martins
(Um dos textos ganhador do Concurso Novos Talentos da Revista Voz Missionária)
Na África, nas Américas e na Europa, as mulheres negras (no Brasil negra-parda) sofrem todo o tipo de abuso (moral, intelectual, sexual, social, no mercado de trabalho etc) e é preterida perante outras matizes formativas do gênero feminino mundial. Não queremos, no entanto, dizer que somente a mulher negra-parda vive essa situação de dupla discriminação, mas quero enfatizar que o turbilhão ocidental, que veio estereotipar, rotulou essa matiz feminina como sendo inferior e não imitável para Ser Mulher. Claro que há focos tímidos de mulheres negras-pardas com um relativo sucesso nos EUA, na Europa e no Brasil, contudo, elas devem se adaptar ao sistema que estereotipa o padrão de comportamento de ser mulher, i.e., mulheres negras devem parecer e agir como mulheres brancas. Devem superar a marca distintiva de sua cor e etnia.
A mídia neste contexto assume o papel de estigmatizar o diferente e o heterogêneo. Nas novelas, comerciais etc dão-se o exemplo de pessoas que devem ser imitadas em detrimento àquelas que não estão em evidência ou são simplesmente ignoradas. Um silêncio sociocultural inquietante e ensurdecedor não? A mídia modela a sociedade e a mulher negra-parda se torna uma caricatura folclórica no papel de empregadas ou passistas do carnaval. Elas [‘as mulheres de cor’] são tidas pela cultura social ligadas ao subemprego, à ignorância e à pobreza econômica e estética... Essa ideologia se expande para outras categorias sociais e a mulher (não só a negra) se encontra numa relação mulher-cônjuge, mulher-empregada, mulher-objeto sexual, como, em geral, a mulher-explorada pelo meio e o fim social.
Quando percebemos esta situação, pela ótica do Reino de Deus, é impossível não termos uma voz profética. A Igreja de Cristo não deve ‘tomar a formar’ (Rm. 12.1 ss) deste padrão social. Os modelos europeu/ norte-americano são também modelo de Ser Mulher, mas não superiores aos outros (Africano, Indígena, Latino ou Asiático). A nossa missão e prática ética não admite sermos coniventes com um sistema que retira a identidade de uma pessoa entre outras. Sua Igualdade em diversidade necessita ser preservada dentro da raça humana. Nossa voz missionária e a nossa voz profética necessitam está em sintonia com a realidade social, não somente da mulher negra-parda, mas com a nossa gente brasileira, multi-étnica e plural. Que Cristo nos faça Um na Diversidade Étnica Humana!
Autor: Marcos José Martins
(Um dos textos ganhador do Concurso Novos Talentos da Revista Voz Missionária)
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